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30 November 2021

Carros e caminhões e táxi, insistem em usar a faixa destinada a onibus

O trajeto é curto, mais ou menos 800 metros. Mas dá um frio no estômago toda vez que um automóvel força a barra, praticamente empurrando a minha bicicleta contra a calçada do Cemitério São João Batista, em Botafogo. O trecho em questão é a faixa compartilhada da General Polidoro, entre as ruas Real Grandeza e São João Batista. A calçada, com cerca de meio metro, ainda tem postes e pedestres, o que inviabiliza a minha passagem por lá. Mas, como preciso testar o sistema de mobilidade com a minha bike, tenho que me aventurar entre os automóveis, seguindo os desenhos de bicicletas no asfalto, indicação de que o ciclista deve dividir o espaço com outros veículos, incluindo motos e ônibus. Ali, o vento no rosto não é sinônimo de prazer por pedalar ao ar livre, mas sinal de que um carro passou raspando e em alta velocidade por mim. Pela General Polidoro transitam, diariamente, 25.410 veículos.

Na cidade, há cerca de 700 mil ciclistas, fazendo 1,5 milhão de viagens diárias, seja em deslocamentos de casa rumo ao trabalho, para o lazer ou para prestar serviços. O município tem 380 quilômetros de rotas cicloviárias, mas a meta é chegar a 450 até o fim deste ano. O trabalho está sendo acelerado porque a prefeitura quer disputar o direito de sediar, em 2018, o Velo-City, conferência anual internacional para discutir o uso da bicicleta como recreação, desenvolvimento sustentável e saudável. De 16 a 19 de agosto, a cidade será avaliada pela European Cyclist Federation, organização internacional com sede em Bruxelas.

A disputa para receber o evento segue preceitos semelhantes aos da escolha da sede das Olimpíadas. Há uma série de encargos e metas, em que é considerada desde a rede hoteleira para abrigar as delegações estrangeiras até a infraestrutura de ciclovias. Em 22 de setembro, Dia Mundial Sem Carro, deverá ser anunciado o ganhador. Este ano, a conferência se realiza em Nantes, na França.

MAIS DE MIL MULTAS EM SETE MESES

Mas, para o Rio ser bem avaliado, além de criar ciclovias, ciclofaixas e faixas compartilhadas, a Secretaria municipal de Meio Ambiente terá que fazer alguns ajustes na malha cicloviária e desenvolver campanhas para melhorar o convívio entre ciclistas, pedestres e motoristas. Durante o teste urbano, no curto trajeto de dez quilômetros que fiz em Botafogo e Copacabana, flagrei cinco carros estacionados em cima de ciclofaixas, além de motos trafegando onde só ciclistas deveriam circular. Segundo a Guarda Municipal, de janeiro a julho deste ano, foram emitidas 1.009 multas de veículos flagrados transitando ou estacionados sobre ciclovias ou ciclofaixas em toda a cidade. Em Copacabana, foram 181 casos, enquanto em Botafogo houve 17 registros. Em sete meses, isso não dá nem uma multa por dia nesses dois bairros. Em toda a cidade, a média foi de cinco carros autuados diariamente.

Ao ser perguntada se o número de multas não seria baixo, a Guarda Municipal disse que a fiscalização é “intensa”. Por e-mail, sua assessoria informou que as infrações são “uma questão cultural (ou de falta de educação mesmo), pois as pessoas muitas vezes param ‘por cinco minutinhos’ e, quando os guardas são acionados, o tempo médio de chegada deles para reprimir o estacionamento irregular é de 25 a 30 minutos”. Para o condutor que estacionar ou der aquela paradinha rápida numa ciclofaixa ou ciclovia, o Código de Trânsito Brasileiro prevê multa de R$ 127,69 e menos cinco pontos na carteira de habilitação. Já para quem trafegar pelas vias destinadas aos ciclistas, a multa é mais pesada, por ser infração gravíssima: R$ 574,62 e perda de sete pontos.

Copacabana tem a maior rota cicloviária da Zona Sul: 22 quilômetros dos 107 da região. Por isso, comecei o meu passeio por lá, pegando o tráfego de 9h de uma terça-feira. Mesmo com 40 ruas inseridas na Zona 30, onde a velocidade máxima permitida é de 30km/h, justamente para garantir a segurança de quem usa a “magrela”, o ciclista percebe logo de cara os problemas. Por exemplo, o bairro não tem uma ligação direta com a Lagoa pelo Corte de Cantagalo. Acaba a ciclovia da Pompeu Loureiro, e o jeito é disputar espaço com os carros na Avenida Henrique Dodsworth, que nem faixa compartilhada tem. Depois é desembarcar da bicicleta e atravessar a Avenida Epitácio Pessoa e seus canteiros até chegar à ciclovia da Lagoa.

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