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24 January 2022

A cor da discórdia: fantasia do Gandhy com tons de amarelo gera polêmica

A enxurada de críticas, claro, partiu das redes sociais, no perfil oficial do bloco no Instagram. “Horrível! Nem de longe parece o Gandhy”. “Vocês esculhambaram com nosso Manto Sagrado”. Em pouco tempo, as críticas circulavam em áudios jocosos de Whatts App, ridicularizando a iniciativa. “Na moral, não vou sair de Banana de Pijamas, não!”.

Tudo porque, tradicionalmente azul e branco, Os Filhos de Gandhy adicionaram (em grande quantidade) a cor dourada na fantasia em comemoração aos 70 anos da entidade na edição do Carnaval 2019. A mudança causou tanta revolta que muitos prometem fazer protestos e queimar a fantasia. Outros ameaçam entrar no bloco com a indumentária de carnavais anteriores.

A maioria dos associados que buscava as fantasias ontem, em um shopping de Salvador, criticaram o que chamaram de descaracterização. “Esse mostarda não pegou bem, não! Que colocassem menos. Poderia ter, mas bem menos”, disse o analista de sistemas Jumário Souza, 34, que sai no Gandhy desde 2007.

Jumário, 12 anos de Gandhy: ‘Mostarda pegou mal’ 
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

O presidente do afoxé, Gilsoney de Oliveira, argumentou que o Gandhy, historicamente, sempre foi alvo de polêmicas por parte dos associados.

“Desde a fundação, quando o Gandhy foi criado, o pessoal saía só com um lençol branco e um pano na cabeça. Daí teve polêmica quando se acrescentou o cordão, os desenhos e a cor azul, que não existia. Depois teve polêmica quando criou o turbante, que hoje é tradicional. Em seguida teve polêmica quando colocou o carro de som, a mesma coisa quando colocou trio elétrico e quando, nos 55 anos, saímos com o turbante azul”, enumera Gilsoney, presidente do afoxé.

“Tudo no Gandhy tem uma polêmica. Não estamos mudando a tradição e a cultura. Continuamos mantendo os cânticos, os adereços, os instrumentos e a musicalidade.  Estamos preservando o tapete branco, que é visto de cima”, diz Gilsoney, destacando que a cor do turbante foi mantida. “O Gandhy não é só sua fantasia. A tradição sempre se manteve com todas as mudanças”, pontuou.

Partículas de ouro
O artista plástico responsável pela arte impressa na fantasia, Alberto Pitta, explica que a mudança tem várias intenções. A primeira delas seria associar o Gandhy a uma jóia que completa 70 anos. A segunda intenção seria homenagear a orixá Oxum e as mulheres. O terceiro objetivo seria exaltar as cores do antigo afoxé Badauê, de mestre Moa do Katendê, que sempre privilegiou o amarelo.

“Quando o Gandhy me convidou o tema era Gandhy 70. Achei pouco e disse que seria: ‘A joia rara faz 70’. Acho que os blocos afros podem e devem mexer na sua estética. Colocamos o dourado e não o amarelo como estão dizendo”, disse Pitta, destacando que a fantasia tem partículas de ouro.

“Eu sabia que ia causar estranhamento e dividir o afoxé. O Gandhy é muito mais que um tapete branco. Ele é um afoxé que vai para as ruas se posicionando. Eu quis quebrar com a estética. Sou artista plástico”. 

O presidente Gilsoney ainda acrescentou um quarto objetivo, que seria evitar a participação de pessoas com fantasias de carnavais anteriores no desfile dos 70 anos. “A gente imaginou que, por ser 70 anos, esse problema, que sempre existe, ia ser maior esse ano”, disse Gilsoney, sublinhando que as críticas têm origem política.

Reajustes
O problema é que a cor da discórdia desencadeou diversas outras críticas. Algumas, antigas, foram reforçadas. Os preços sempre crescentes da fantasia, por exemplo. Nos últimos três anos, a indumentária do Gandhy sofreu reajustes de R$ 100 a cada Carnaval. Em 2017 foi R$ 500, em 2018 R$ 600 e agora R$ 700.

A transferência das vendas da fantasia para a Central do Carnaval, em um shopping center da cidade, engrossou ainda mais os ataques contra a diretoria, que, segundo parte dos associados, transforma um bloco de origem popular, fundado por estivadores, em uma entidade elitizada.

“Se já vinha indignado com o valor – surreal para um ‘estivador’; com a venda pela Central do Carnaval; com a entrega da indumentária anunciada para um shopping, vocês me vem com mais uma descaracterização”, escreveu no perfil oficial do Gandhy um seguidor identificado como Petry Lordelo.

“Quer dizer, nós tentamos facilitar a venda das nossas fantasias pela Internet, tentamos transformar o bloco em uma entidade internacional, e somos criticados. Não dá pra entender”, rebateu Gilsoney.

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