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11 May 2021

A crise das putas ,Covid-19 afetou a rotina de trabalho .

Com as ruas vazias e sem clientes, garotas de programa temem a covid-19, mas a falta de dinheiro preocupa mais

Pastoras da noite

De vestidinho vermelho com a estampa do Mickey, Raquel se encosta num poste e acende um cigarro na orla de Salvador. Ela apenas observa as ruas se esvaziando por conta do lockdown parcial. Há pouco mais de um ano, mal conseguia terminar suas tragadas de tantos clientes à sua procura. Como uma pastora da noite, conduzia a madrugada de uma cidade que não sabia dormir cedo.

Garota de programa, Raquel ganhava mimos, dinheiro, juras de amor. Era comum faturar R$ 500, antes mesmo do sol nascer. Hoje, com a capital precisando adormecer cedo para evitar o aumento de casos da covid-19, o dinheiro ganho num dia mal dá para comprar um maço de cigarro. Como oferecer prazer em tempos de distanciamento social? Nas ruas de Salvador, profissionais do sexo convivem com a falta de clientes e  o risco diário de pegar o coronavírus.

“Já estou há quatro horas aqui e não fiz nenhum programa. Está assim quase todos os dias, nem me preocupo com a contaminação da covid-19, pois não tem cliente. Gasto minha beleza pra nada”, disse Raquel, que trabalha ao lado do marido Val, vendedor ambulante de bebidas  durante a madrugada da orla.

Em 2020, Raquel conseguiu o auxílio emergencial, o que ajudou nas despesas durante a pandemia. Apesar da profissão não ser regulamentada, é reconhecida como ocupação pelo Ministério do Trabalho e Emprego, desde 2002. Contudo, nem todas conseguiram. “Que auxílio emergencial? Umas conseguiram, outras não. Eu não consegui. Gasto dinheiro com aluguel, fico linda e, quando finalmente aparece um cliente, me oferece R$ 20 pelo programa. Não vou. Estou custando menos que uma carne do sol? Já estou pensando em voltar para Recife”, disse a pernambucana Agata, amiga de Raquel. “Meu trabalho diminuiu 90%. Antes da pandemia, não ficava 15 minutos parada aqui”, lembra.

Pastoras da noite

De vestidinho vermelho com a estampa do Mickey, Raquel se encosta num poste e acende um cigarro na orla de Salvador. Ela apenas observa as ruas se esvaziando por conta do lockdown parcial. Há pouco mais de um ano, mal conseguia terminar suas tragadas de tantos clientes à sua procura. Como uma pastora da noite, conduzia a madrugada de uma cidade que não sabia dormir cedo.

Garota de programa, Raquel ganhava mimos, dinheiro, juras de amor. Era comum faturar R$ 500, antes mesmo do sol nascer. Hoje, com a capital precisando adormecer cedo para evitar o aumento de casos da covid-19, o dinheiro ganho num dia mal dá para comprar um maço de cigarro. Como oferecer prazer em tempos de distanciamento social? Nas ruas de Salvador, profissionais do sexo convivem com a falta de clientes e  o risco diário de pegar o coronavírus.

“Já estou há quatro horas aqui e não fiz nenhum programa. Está assim quase todos os dias, nem me preocupo com a contaminação da covid-19, pois não tem cliente. Gasto minha beleza pra nada”, disse Raquel, que trabalha ao lado do marido Val, vendedor ambulante de bebidas  durante a madrugada da orla.

Em 2020, Raquel conseguiu o auxílio emergencial, o que ajudou nas despesas durante a pandemia. Apesar da profissão não ser regulamentada, é reconhecida como ocupação pelo Ministério do Trabalho e Emprego, desde 2002. Contudo, nem todas conseguiram. “Que auxílio emergencial? Umas conseguiram, outras não. Eu não consegui. Gasto dinheiro com aluguel, fico linda e, quando finalmente aparece um cliente, me oferece R$ 20 pelo programa. Não vou. Estou custando menos que uma carne do sol? Já estou pensando em voltar para Recife”, disse a pernambucana Agata, amiga de Raquel. “Meu trabalho diminuiu 90%. Antes da pandemia, não ficava 15 minutos parada aqui”, lembra.

Riscos e fome
Segundo dados da Associação das Prostitutas da Bahia (Aprosba), até o final de 2019 Salvador possuía 820 prostitutas cadastradas, sem contar mulheres trans, como Raquel e Agata. Entre elas, quem mais sofre são as que trabalham nas ruas e becos da cidade, o que atinge 85% da classe.

Riscos e fome
Segundo dados da Associação das Prostitutas da Bahia (Aprosba), até o final de 2019 Salvador possuía 820 prostitutas cadastradas, sem contar mulheres trans, como Raquel e Agata. Entre elas, quem mais sofre são as que trabalham nas ruas e becos da cidade, o que atinge 85% da classe.

Sem clientes, algumas passam fome. A Aprosba atende todos os dias garotas de programa sem dinheiro para comer ou sustentar os filhos. “Está muito triste. Meu telefone não para de receber ligações de prostitutas precisando comer ou pagar conta. Ajudamos com cestas básicas e auxiliamos, principalmente em 2020, com o cadastramento do auxilio emergencial. Algumas conseguiram, outras não. Muitas nem possuem CPF”, disse a coordenadora da Aprosba, Fátima Medeiros.

Desde a última quarta-feira (31), a Aprosba resolveu parar, assim como outras associações, como a de Minas Gerais. Uma espécie de greve para que estado e prefeitura reconheçam profissionais do sexo como grupo com alta vulnerabilidade nesta pandemia, além de serem inseridas na vacinação contra a covid-19.  Contudo, das mulheres que conversaram com o CORREIO, nenhuma aderiu à greve. “Não posso, preciso comer”, disse a garota de programa Luana.

Há 10 anos, Luana se apaixonou, saiu da prostituição, casou e teve três filhos. O final deixou de ser feliz em dezembro de 2020, quando o marido levou uma facada numa briga, foi dar queixa, mas ele próprio acabou sendo preso. Havia um mandado de prisão em seu nome. Marido detido, pandemia, desemprego e três filhos para alimentar. Luana não teve outra saída. “Tentei vender salgado, mas voltava com R$ 10. Meus filhos não tinham mais leite pra beber em casa. Luz cortada, geladeira vazia. Voltei a fazer vida no meio da pandemia. Um sexo oral é mais dinheiro que um dia todo vendendo salgado”.

De volta às ruas, Luana se diz assustada com o risco de contrair covid-19. Para minimizar o perigo, ela criou seus próprios protocolos, com uma exigência: sem beijo na boca. “Me apavoro todo dia com o risco de morrer de covid e deixar meus filhos. Assim que entro no carro do cliente,  higienizo as mãos dele com meu álcool em gel. Como eu preciso tirar minha máscara para fazer oral, ele precisa estar o tempo todo com a dele no rosto”, explica. Segundo ela, a tática está dando certo. “Ainda não peguei”, frisa.

Dentro da realidade imposta pela profissão, alguns cuidados são importantes, como prega a Aprosba. Higienizar o local da relação é a primeira medida. Sobre as posições sexuais, vale algumas que evitam o contato face a face. Ter uma muda de roupa para fazer a troca a cada programa também minimiza os riscos. Contudo, o mais importante é evitar o beijo na boca. Como a doença é transmitida pelas vias respiratórias, a máscara se tornou uma espécie de preservativo contra o coronavírus. O problema é que nem todo mundo quer usar.

 

Correio

 

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