Augusto Cury dispara nas redes sociais e conquista milhões de novos seguidores com vídeos virais
Vídeos em apoio à candidatura presidencial do escritor e psiquiatra Augusto Cury (Avante) ganharam grande alcance nas redes sociais nos últimos dias e provocaram uma forte alta no número de seguidores do candidato. O movimento ocorre após a participação de Cury no debate entre presidenciáveis promovido pela TV Bandeirantes e às vésperas da sabatina da TV Globo, prevista para sábado (29).
Apesar da repercussão digital, Cury ainda aparece com 2% das intenções de voto na última pesquisa Datafolha. A campanha afirma que o crescimento nas plataformas ocorre de forma orgânica e nega que influenciadores estejam sendo contratados para divulgar o candidato, prática que é proibida pela legislação eleitoral.
Vídeos de Augusto Cury ultrapassam milhões de visualizações
A reportagem identificou no Instagram dezenas de vídeos publicados por influenciadores de diferentes portes em apoio a Augusto Cury. Muitos dos conteúdos ultrapassaram 1 milhão de visualizações, enquanto alguns chegaram a superar a marca de 10 milhões de visualizações.
O crescimento chamou a atenção porque Cury pertence a um partido de menor expressão e, até pouco tempo atrás, tinha participação bastante reduzida nas conversas sobre a disputa presidencial nas redes sociais. A campanha passou a acompanhar o fenômeno e afirma que sua estratégia consiste em aproveitar a repercussão espontânea sem realizar pagamentos aos criadores de conteúdo.
O marqueteiro da campanha, Sérgio Lima, sustenta que não houve contratação de influenciadores para promover o candidato. Segundo ele, alguns produtores chegaram a procurar a equipe acreditando que existia uma estratégia comercial para a divulgação dos conteúdos, mas foram informados de que esse tipo de contratação não poderia ser realizado.
Até o momento, de acordo com Lima, o único investimento direto feito pela campanha nas redes sociais foi de R$ 50 mil em impulsionamento de publicações do próprio Cury no Facebook.
A equipe também passou a interagir com as publicações que mencionam o candidato. A estratégia, segundo o marqueteiro, consiste principalmente em Cury agradecer e comentar conteúdos produzidos pelos influenciadores, com atenção especial aos perfis menores, em uma tentativa de estimular o alcance da onda de publicações.
Candidato ganha quase 2 milhões de seguidores
O crescimento dos vídeos foi acompanhado por uma alta expressiva no número de seguidores de Augusto Cury. Dados da plataforma de inteligência Sólon apontam que o candidato tinha 8,4 milhões de seguidores no Instagram na última terça-feira (25).
Dois dias depois, nesta última quinta-feira (27), o número havia chegado a 10,3 milhões de seguidores. O aumento representa quase 2 milhões de novas contas em apenas 48 horas, segundo os dados apresentados pela plataforma.
A alta aconteceu poucos dias depois do debate entre os candidatos à Presidência realizado pela TV Bandeirantes em parceria com o jornal O Estado de S. Paulo. A participação de Cury no encontro passou a ser utilizada como conteúdo nas redes sociais, especialmente por meio de cortes de suas declarações.
A campanha agora considera a participação na sabatina da TV Globo, marcada para sábado (29), como uma nova oportunidade para ampliar a exposição do candidato. A equipe afirma que, diante do crescimento repentino, o principal desafio passou a ser administrar a repercussão e evitar erros que possam interromper o movimento.
Menções nas redes sociais também disparam
O avanço de Cury não aparece apenas no número de seguidores. Dados da consultoria AP Exata mostram uma mudança significativa na presença do candidato nas conversas políticas das redes sociais.
Até 23 de agosto, data do debate, Cury registrava média de apenas 0,35% das menções aos candidatos à Presidência. Nesta última quinta-feira (27), esse índice havia subido para 13,5%.
Além do crescimento no volume de menções, a análise aponta que 52% das referências a Cury eram positivas, percentual que representava a maior taxa entre todos os presidenciáveis monitorados pela consultoria.
Segundo a avaliação da AP Exata, o candidato passou a ser associado com frequência a características como educação, equilíbrio e sensatez. A análise aponta ainda que sua postura menos agressiva em comparação com outros concorrentes pode estar contribuindo para sua aproximação com eleitores de centro e públicos menos envolvidos na polarização política.
O cientista político e CEO do Instituto Travessia, Renato Dorgan, também avaliou o desempenho do candidato. Para ele, Cury teve uma participação discreta no debate, mas seus cortes foram aproveitados de maneira eficiente nas redes sociais.
Dorgan destaca que o candidato abordou temas considerados menos frequentes na disputa presidencial, como neurodivergência e o papel do Estado, além de questões relacionadas a postura, ética, educação e ao futuro do país. A avaliação é de que Cury conseguiu se distanciar do modelo de confronto direto e do embate ideológico que domina parte da corrida eleitoral.
Cury tenta ocupar espaço no centro político
A repercussão digital também passou a ser analisada sob a perspectiva do posicionamento político do candidato. Para Sergio Denicoli, CEO da AP Exata, Cury vem tentando construir uma candidatura de centro a partir de críticas à identificação excessiva dos eleitores com lideranças políticas.
Nesse posicionamento, o escritor tem questionado movimentos associados a diferentes líderes, incluindo lulismo e bolsonarismo. A estratégia procura defender uma postura mais crítica dos eleitores em relação aos políticos que apoiam, destacando a necessidade de avaliar erros e acertos independentemente da identificação ideológica.
Apesar da evolução nas redes sociais, Dorgan considera difícil a viabilização eleitoral da candidatura de Cury. Na avaliação do cientista político, a disputa presidencial continua concentrada principalmente entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Para que Cury consiga transformar o crescimento digital em competitividade eleitoral, seria necessário, segundo Dorgan, um movimento muito expressivo de perda de apoio entre os eleitores de Flávio Bolsonaro.
Buscas por Augusto Cury também aumentam
Outro indicador de crescimento da exposição do candidato aparece no Google Trends, ferramenta que mede o interesse de busca por determinados termos na internet.
Na última semana, Augusto Cury registrou 26 pontos de interesse médio nas buscas, acima dos 15 pontos de Flávio Bolsonaro e dos 13 pontos registrados por Renan Santos, candidato do partido Missão.
No período analisado, Cury ficou atrás apenas de Lula, que registrou 39 pontos. O resultado reforça a percepção de que o candidato passou a despertar maior interesse do público nos últimos dias, embora esse aumento ainda não tenha se convertido em desempenho eleitoral proporcional nas pesquisas.
A combinação entre vídeos com milhões de visualizações, aumento de seguidores, maior participação nas conversas políticas e crescimento nas buscas fez com que a candidatura passasse a receber atenção de adversários e internautas.
Campanhas adversárias questionam crescimento nas redes
A dimensão da repercussão levou campanhas adversárias a investigar as razões do crescimento de Cury. Nas redes sociais, parte dos usuários passou a questionar se a expansão seria realmente espontânea, enquanto outros consideram que o candidato conseguiu ultrapassar os limites de seu público tradicional e “furar a bolha” política.
O fenômeno também foi comparado ao desempenho de Pablo Marçal (PRTB) na eleição municipal de São Paulo de 2024. Naquele pleito, conteúdos relacionados ao então candidato ganharam grande alcance nas plataformas digitais por meio de um campeonato de cortes que oferecia ganhos financeiros a pessoas que compartilhassem seus conteúdos.
A comparação alimentou suspeitas entre adversários de que Marçal ou integrantes de sua equipe poderiam estar ajudando a estratégia digital de Cury. A campanha do candidato do Avante, no entanto, nega qualquer participação do ex-coach ou de sua equipe na mobilização atual.
Pablo Marçal já declarou apoio a Cury
A hipótese de uma aproximação entre os dois candidatos ganhou força devido a declarações feitas anteriormente por Marçal.
Cerca de dois meses atrás, Cury participou do podcast apresentado por Marçal. Na ocasião, o ex-coach afirmou que pretendia ajudar o candidato do Avante e se colocou à disposição para atuar como conselheiro na área digital caso Cury tivesse condições de chegar à Presidência.
Durante a campanha eleitoral, Marçal também participou de uma entrevista à produtora Brasil Paralelo, na condição de candidato à Presidência, e utilizou os minutos finais do programa para elogiar Cury e declarar que gostaria de contribuir com sua candidatura.
Apesar dessas manifestações públicas, a campanha de Cury nega que exista uma estrutura organizada por Marçal para impulsionar os conteúdos do candidato.
Outro episódio que alimentou as especulações ocorreu após a publicação de um vídeo recente de Cury, no qual ele apresenta um trecho que aparenta ser o jingle de sua campanha.
O conteúdo foi repostado pelo cineasta Nehuel Medina, integrante da equipe de Marçal. Medina comentou positivamente na publicação e também compartilhou uma fotografia ao lado de Cury. O cineasta já havia publicado imagens com outros candidatos, entre eles Romeu Zema e Flávio Bolsonaro.
Medina ficou conhecido nacionalmente por ter agredido Duda Lima, então marqueteiro de Ricardo Nunes (MDB), durante um debate da eleição para a Prefeitura de São Paulo.
Pablo Marçal foi procurado pela reportagem sobre a possível participação na estratégia digital de Cury, mas não havia se manifestado até a publicação do texto.
Vice de Cury também nega atuação de Marçal
O vice na chapa de Augusto Cury, ex-deputado federal Júlio Delgado (Avante-MG), também afirma que o crescimento dos conteúdos ocorre de maneira espontânea e que não existe participação de Marçal ou de sua equipe.
Segundo Delgado, depois do debate, a campanha começou a receber ligações de influenciadores de diferentes Estados interessados em obter materiais sobre Cury para reproduzir em seus próprios perfis.
O candidato a vice afirmou ainda que duas dessas pessoas disseram ter proximidade com Marçal. A equipe de Cury, segundo Delgado, forneceu informações aos interessados, mas sustenta que isso não significa a existência de contratação ou coordenação por parte da estrutura do ex-coach.
