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17 September 2021

Bahia é 2º estado com motoristas drogados em potencial

A suspensão do exame toxicológico para motoristas profissionais obterem ou renovarem a carteira nacional de habilitação (CNH) tem gerado polêmica. O SOS Estradas – Programa de Segurança nas Estradas – realizou estudo para checar se há na categoria condutores que tenham recebido a CNH para dirigir coletivos e veículos pesados, apesar de serem potencialmente usuários regulares de drogas.

Se, por um lado, o Departamento Estadual de Trânsito (Detran-BA) defende que não há comprovação científica da eficácia do exame, por outro, o SOS Estradas alega que a suspensão contribui para que motoristas usuários regulares de drogas ponham vidas em risco.

O programa identificou o índice de 10% em todos os estados como percentual de possíveis usuários de drogas. A estimativa é a mínima encontrada para motoristas profissionais, na média de estudos realizados pelo Ministério Público do Trabalho, pela Polícia Rodoviária Federal e por meios acadêmicos.

Segundo o levantamento, a Bahia é o segundo estado com maior número de motoristas potencialmente drogados no país. Com 677 carteiras emitidas, em 2013, sem a realização do exame, o estado fica atrás apenas de São Paulo, com 6.183 no mesmo período.

O cálculo foi feito com base na quantidade de CNHs nas categorias C, D e E renovadas em 2013. No ano, foram expedidas 81.202 habilitações na Bahia, com a média de renovação mensal de 6.766. A partir daí, o SOS Estradas realizou a estimativa com base em 10% de positividade para drogas, chegando ao total de 677.

Rodolfo Rizzotto, coordenador do programa, informa ainda que o número pode ser maior, visto que os cálculos foram feitos com base em dados de 2013. “Hoje, o número de CNHs expedidas é excedente a esse total, logo a proporção de motoristas que são possíveis usuários de drogas também é maior”, pontua Rizzotto.

Rizzotto alerta ainda para o fato de que esse número pode crescer, uma vez que há a migração de motoristas que usam drogas para estados em que a liminar de suspensão foi concedida. “Motoristas do Espírito Santo, por exemplo, sabendo que a Bahia não exige o exame para a renovação, podem migrar para o estado para renovar a carteira”, disse.

O diretor de habilitação do Detran, Mário Galrão, esclarece que o procedimento não é tão fácil assim. “O motorista só pode fazer a renovação na sua base geográfica municipal. Para fazer em outro estado, é preciso que ele mude o prontuário para o lugar onde deseja. Daí, ele tem que comprovar residência”, descreve.

Motoristas

Caminhoneiro há 20 anos, Iomar Reis, 38, não considera que a suspensão do exame seja positiva. “Não acho legal. A gente sabe que, infelizmente, a maioria dos caminhoneiros usa drogas. Acredito que seja mais suscetível a acidentes”, opina.

Josafá de Souza, 44, caminhoneiro há 15 anos, discorda: “A desculpa que dão para o exame são os acidentes, mas a maioria deles é causada por carros pequenos. Muitos motoristas são irresponsáveis, mas não é justo fazer com que o caminhoneiro pague R$ 700 por esse exame”, disse o motorista.

Estimulantes alteram a atividade cerebral

As drogas utilizadas por motoristas profissionais, com a finalidade de manter o organismo ativo durante as longas jornadas de trabalho, são classificadas como estimulantes.

“Elas são classificadas assim porque, além de ativar os sentidos, aumentam a atividade cerebral. Nesse quadro, nós encaixamos estimulantes leves, como chocolates, refrigerantes e cafeína, e estimulantes pesados, como anfetamina (conhecida como rebite), cocaína e até mesmo o crack”, explica a médica toxicologista Manuela Coelho.

Conforme Manuela, os estimulantes provocam a sensação de descanso, o que faz com que o motorista sinta que não precise dormir. “No final das contas, são falsas sensações perigosas, porque faz com que o usuário perca parcialmente os reflexos. Assim, ele vê o perigo, sabe que tem de frear e, ao invés disso, pisa fundo no acelerador, aumentando as chances de provocar graves acidentes”, exemplifica.

Manuela esclarece ainda que esse tipo de droga altera o funcionamento cerebral e, consequentemente, afeta o comportamento, humor, equilíbrio, consciência, entre outras habilidades do usuário.

“Um indivíduo que ingere muito café, por exemplo, tem o funcionamento do sintema nervoso mais acelerado do que o que não consome”, pontua.

De acordo com Manuela, os estimulantes leves e pesados atuam de forma proporcional no cérebro. “É importante esclarecer que o café não tem o mesmo efeito que a cocaína, por exemplo. Além da dosagem, são drogas com composições completamente diferentes e, apesar de agirem na mesma parte do sistema nervoso, são estimulantes desiguais”, explica a toxicologista.

 

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