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20 June 2021

Comerciantes da Rua Chile também esperam por projeto de revitalização

 

O abandono do centro de Salvador está fazendo os poucos e resistentes comerciantes pensarem em desistir desta parte da cidade. Quem passa pela Rua Chile percebe muitas portas fechadas em uma área que já abrigou hotéis de luxo, lojas de grife e elegantes cafés numa época em que o comércio funcionava até mais tarde. Os comerciantes que viveram a era do glamour daquela região lamentam o estado de abandono que paira pelas ruas do centro antigo.

“Ainda espero alcançar algum projeto que traga de volta o encanto desta rua tão importante para a história da Bahia. Aqui presenciei o glamour de Salvador, onde pessoas da mais alta sociedade passeavam e compravam muito por aqui. Um lugar de lojas requintadas e que fizeram história como a Sloper, a Adamastor, a Confeitaria Chile, local escolhido pelas madames para tomar o famoso “Chá das 5h”, com direito a um piano bar”, lembra o comerciante Mário Ferreira Filho, que há 42 anos mantém uma loja de equipamentos fotográficos.

Segundo Mário Filho, as lojas fechavam mais tarde e isso fazia com que a rua ficasse movimentada até tarde da noite. O pipoqueiro José Antônio Silva, que há 57 anos ainda vende pipoca no mesmo ponto, onde antes funcionava o cine Tamoio, também lembra da época. “As moças quando vinham para o cinema, compravam os ingressos e iam passear a pé. Tinha vezes que eu vinha até de paletó e gravata borboleta porque sabia que o governador vinha para cá”, conta o ambulante cheio de orgulho.

Desabafo

A situação fez o diretor do Cine Glauber Rocha (Itaú Cinemas), Cláudio Marques, usar as redes sociais para um desabafo. “Somando ao roubo de fios do início do ano, à falta de política para a reabilitação da área nesses anos todos, à falta de diálogo e interesse do poder público e da sociedade como um todo em estar na rua, creio que talvez esse sonho seja sonho, mesmo. Talvez seja inviável manter um cinema de rua em salvador, mesmo que esse tenha sido o principal palco de exibição da cidade, desde 1919”, escreveu ele em sua página na internet.

O Cinema é um dos poucos empreendimentos da área que funciona à noite e nos fim de semana. Cláudio Marques acredita que a região precisa de mais iniciativas empresariais que funcionem até mais tarde também. “Aqui precisa de incentivos para trazer mais restaurantes, cafés, teatro. Isso pode ajudar a manter a vida noite adentro, sugere Marques. 

Além disso, o diretor também chama a atenção para a falta de opções de ônibus para a região. Há algum tempo, assistir a um filme no Cine Glauber Rocha era uma dificuldade para o bacharel em Ciências da Computação Rafael Saraiva. “Para chegar aqui eu tinha que descer na Estação da Lapa e vir andando ou eu tinha que ir para o Comércio. À noite era bem mais complicado. Agora que tenho carro, a dificuldade é para estacionar”, conta. O cinema oferece apenas 45 vagas de estacionamento para os clientes, e a prefeitura proibiu os motoristas de estacionar na Rua Chile.

Intervenções no Centro Antigo

A Diretoria do Centro Antigo de Salvador (Dircas), ligada à Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado (Conder), garantiu que será realizada uma série de novas intervenções nos bairros que integram o Centro Antigo de Salvador (CAS). Através do Plano de Reabilitação do Centro Antigo, serão aplicados cerca de R$ 270 milhões direcionados aos serviços de urbanização e requalificação de 323 vias de nove bairros da região, entre elas a Rua Chile.

A revitalização do comércio e oferta de serviços; o incentivo ao uso habitacional de imóveis da região, assim como a qualificação dos espaços culturais e monumentos e a requalificação da infraestrutura, estão entre as propo0stas definidas para o local. Os investimentos são provenientes de recursos do Governo da Bahia e do Governo Federal, através dos Programas de Aceleração do Crescimento das Cidades Históricas e Pavimentação (PACs CH e 2).

Enquanto isso, baianos e turistas penam em andar pelas ruas do Centro. Sem segurança, as pessoas tendem a circular menos e o comércio é obrigado a fechar mais cedo, deixando o local mais deserto. Essa rotina se reflete também na evasão de turistas dos hotéis da região. A governanta Rosângela Esteves, do Hotel Chile, que já teve como hóspede o fotógrafo franco-brasileiro Pierre Verger por quatro anos (1946 a 1950), afirmou que a ocupação poderia ser melhor. 

“O hotel é bem localizado, próximo aos principais centros turísticos de Salvador, mas as ruas desertas e os assaltos afastam muitos turistas daqui. Às vezes tem shows no Pelourinho, mas o turista fica com medo de ir, já que o taxista se recusa a trazê-los por causa da distância, e a pé corre risco de assalto”, revela. Para inibir os crimes, o hotel instalou câmeras de segurança nas proximidades do estabelecimento.

Comerciantes e transeuntes das ruas do Centro Antigo de Salvador acreditam que medidas como mais iluminação e segurança ajudem a melhorar o ambiente. “Seria muito bom ter um módulo policial aqui, talvez as pessoas se sentissem mais tranquilas para caminhar”, conta a comerciante Mel Rosário, que mantém uma ótica há 15 anos na região.

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