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24 January 2022

Coronavírus: o Brasil já conseguiu achatar a curva de mortes?

Os últimos dados sobre novos casos e mortes por coronavírus divulgados pelo Ministério da Saúde dão a impressão de haver um achatamento na curva da epidemia no Brasil, principalmente na quantidade de mortes. Na segunda-feira 20, foram registrados 113 novos óbitos e 1.927 novos casos. Já na terça-feira 21, foram 166 novos óbitos e 2.498 casos. Mas de fato isso está acontecendo? Conseguimos achatar a curva?

Parece que sim. “A curva está diminuindo sim”, diz a VEJA o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz e professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. No entanto, Croda não usa como base para essa conclusão os dados oficiais de contágio e mortes por coronavírus e sim o número de internações por síndrome respiratória aguda grave (Srag).

“Há um claro achatamento na curva de casos de síndrome respiratória aguda grave (Srag), que reflete a diminuição na taxa de contágio, principalmente nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. O ideal, neste momento, é utilizar o monitoramento da Srag porque esse dado independe de testes de diagnóstico. Além disso, a Srag não serve só para coronavírus, mas para todas as doenças respiratórias. Se há uma redução da mobilidade, há uma redução de doenças respiratórias em geral e de internações associadas às doenças. É isso o que estamos vendo agora”, explica o especialista.

De acordo com Croda, a possível subnotificação de casos e mortes por Covid-19 devido à ausência de testes em massa no país pode comprometer a análise da curva de crescimento no Brasil. “Ao concentrar a explicação apenas nos números oficiais de casos e óbitos, pode haver a construção de uma narrativa que os óbitos estão diminuindo, quando, na verdade, é pela falta de testes. Apesar do número de exames estar aumentando, ainda não é o ideal. À medida que tenhamos mais testes disponíveis, talvez esse número de casos de Covid-19 seja mais real”, analisa o pesquisador da Fiocruz.

Já o epidemiologista, infectologista e mestre em saúde pública Bruno Scarpellini pede cautela. “Parece que a curva está achatada, mas acho que é precoce fazermos qualquer afirmação. Será que não subdiagnosticamos e continuamos subnotificando? Aparentemente estamos melhor do que outros países. Mas já vimos países que afrouxaram a conduta e tiveram disparada de casos, como Suécia, Japão e Coreia do Sul”, diz o especialista.

Ao comparar a curva de crescimento do Brasil com a de outros países (veja os gráficos abaixo) no mesmo período da pandemia (primeiros 56 dias após a confirmação do primeiro caso), vemos que no que diz respeito ao ritmo de contágio o Brasil está abaixo apenas da Itália e da Espanha. Mas na comparação da evolução dos óbitos, a curva do Brasil é a segunda menor, atrás apenas da França.

Vale ressaltar que hoje, esses países – França, Alemanha, Estados Unidos, Itália e Espanha – estão em um estágio muito mais avançado da epidemia do que o Brasil, pois tiveram seu primeiro caso confirmado cerca de um mês antes de nós. De qualquer forma, seu exemplo serve de aprendizado sobre a importância não só da testagem em massa, mas também do respeito às medidas de distanciamento social e de um relaxamento gradual dessas medidas.

Cerca de três meses após a confirmação do primeiro caso – ou seja, em um período de um mês a mais do que o Brasil está agora -, os Estados Unidos tinham 661.712 casos confirmados e 34.619 mortes. A França, 156.500 casos confirmados e 19.323 mortes. E o Reino Unido, hoje tem 130.200 casos confirmados e 17.337 mortes. Ou seja, sua curva começou a cresceu exponencialmente após os primeiros dois meses do início da epidemia. Portanto, mesmo que o Brasil pareça estar no caminho certo, não dá para relaxar.

Os especialistas concordam que as medidas de isolamento adotadas no país funcionaram. Mas alertam que ainda é cedo para retira-las. “O número que estamos vendo agora representa ações tomadas de duas a quatro semanas atrás. Se daqui a duas semanas aumentar o número de mortes e de casos, será consequência do que fizemos hoje. Precisamos continuar com o distanciamento e programar uma saída gradual, seguindo o protocolo da OMS”, afirma Scarpellini.

“Aconteceu o achatamento, o primeiro objetivo foi atingido. Agora é importante planejar a reabertura. É preciso fazer o monitoramento de indicadores precisos e em tempo real. No momento em que o isolamento é relaxado, a taxa de contágio deve aumentar, assim como a necessidade de internações em UTI. Cabe ao gestor analisar esses números e adotar uma nova medida de isolamento quando for necessário. Conhecemos a doença, temos a experiência de outros lugares do mundo e qualquer superlotação do serviço de saúde é de responsabilidade do gestor. Ao propor o relaxamento ele supõe que há capacidade para atender os pacientes”, complementa Croda.

Mesmo com o achatamento da curva, alguns estados estão com dificuldade para atender os pacientes, como Amazonas e Ceará. “O número de leitos disponíveis nesses locais não é suficiente para atender os pacientes. Existe uma desproporção no número de leitos por 10.000 habitantes no Brasil, principalmente no sistema público. As regiões Norte e Nordeste tem um número menor que o Sul e o Sudeste. Então já era de se esperar que essas regiões sofressem mais com essa epidemia. Mas a situação poderia estar muito pior nesses estados se nada tivesse sido feito”, explica Croda.

Como já explicado, a função do achatamento é justamente dar ao sistema de saúde capacidade de atender todos os pacientes com qualidade. Por isso a opinião é unânime entre especialistas: mesmo que a curva tenha de fato sido achatada neste momento, até a população adquirir imunidade ou até aparecer uma vacina, haverá momentos de agudização da epidemia e necessidade de implantação de novas medidas de isolamento. “Isso é dinâmico. Precisamos entender que não vamos voltar à normalidade completa tão cedo e isso tem que ser feito porque é o que temos de melhor nesse momento”, finaliza Scarpellini.

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