Dengo, bronca e comida no prato: hábitos e expressões das mães baianas que atravessam gerações
A Bahia é conhecida pelo povo acolhedor, pela comunicação calorosa e pela culinária marcada pelo azeite de dendê, pimenta e pratos tradicionais que atravessam gerações. Além da forte influência cultural e artística que impacta o Brasil e o mundo, o cotidiano das famílias baianas também carrega costumes específicos, especialmente na figura materna. Entre o afeto, o cuidado, as expressões típicas e a relação com a comida, a chamada “mãe baiana” se tornou quase um personagem reconhecível por quem cresceu no estado.
Do “vou te dar uma pisa” ao clássico “vou cuspir no chão e quando secar você já tem que estar aqui”, as frases carregadas de humor, autoridade e exagero fazem parte do imaginário popular. Expressões como “estar retada”, usada para demonstrar raiva, e até a forma específica de usar palavrões no cotidiano ajudam a construir essa identidade cultural transmitida dentro de casa.
Para entender de onde vêm esses comportamentos e como eles se consolidaram ao longo do tempo, o Portal M! conversou com o historiador Murilo Mello e com Michelle Oliveira, influenciadora digital e criadora da comunidade Mamães Baianas, perfil nas redes sociais que reúne mães da Bahia em grupos de apoio, além de compartilhar dicas de consumo, descontos e rotina materna.
“Dengo” e ancestralidade ajudam a explicar a mãe baiana
Segundo o historiador Murilo Mello, muitos dos traços associados às mães baianas têm relação direta com a formação histórica e cultural da Bahia, marcada pelas influências africanas, indígenas e portuguesas.
“Muita coisa que só a mãe baiana tem vem desse dengo, desse jeito mais afetivo. A culinária, as expressões e até a forma de cuidar carregam essas influências”, afirma.
De acordo com ele, o próprio termo “dengo” possui origem africana e está ligado à maneira acolhedora e afetiva de se relacionar. O historiador destaca ainda que a identidade cultural baiana foi construída a partir do encontro entre diferentes povos e tradições.
“A gente foi formado por outros povos, por elementos culturais diferentes, por várias nações africanas e povos nativos. Isso ajudou a construir uma cultura muito própria”, explica.
Murilo também chama atenção para a presença da culinária nas relações familiares e afetivas dentro da Bahia. Segundo ele, hábitos como comer vatapá ou caruru às sextas-feiras e pratos com peixe, siri e dendê em datas religiosas ajudam a reforçar memórias e tradições familiares.
“Tem esse mimo através da comida. No Natal ou na Páscoa, por exemplo, geralmente aparecem pratos com peixe, siri e dendê. São elementos que fazem parte da nossa identidade”, pontua.

Divulgação
Expressões típicas e linguagem própria marcam o cotidiano
A linguagem aparece como uma das marcas mais fortes da mãe baiana. As expressões carregadas de humor, intensidade e espontaneidade ajudam a criar uma comunicação muito própria dentro das famílias.
Para Murilo Mello, o jeito de falar na Bahia também é resultado da mistura cultural que formou o estado ao longo dos séculos.
“As expressões das mães baianas são muito engraçadas e muito nossas. Algumas interjeições, palavras e construções dificilmente aparecem da mesma forma em outros lugares”, afirma.
O chamado “baianês” aparece não apenas nas ruas, mas também dentro de casa, especialmente na forma como mães se comunicam com os filhos. Muitas dessas expressões passam de geração em geração e acabam funcionando como marcas afetivas e culturais.
Entre os exemplos mais conhecidos estão ameaças exageradas usadas em tom de bronca, frases para apressar os filhos e formas intensas de demonstrar irritação ou carinho. Para muitos baianos, essas falas fazem parte da memória afetiva da infância.
Influenciadora criou comunidade para conectar mães na Bahia
A necessidade de criar vínculos e trocar experiências durante a maternidade levou Michelle Oliveira a criar o perfil Mamães Baianas. Além de compartilhar dicas de compras, descontos em parceiros e conteúdos sobre rotina familiar, a influenciadora também desenvolveu uma rede de apoio entre mães por meio de grupos no WhatsApp.
Segundo Michelle, a iniciativa nasceu após uma experiência pessoal de solidão na maternidade, quando se mudou de Salvador para Lauro de Freitas.
“Quando me mudei, me vi sem rede de apoio por perto. Com filhos, tudo mudou. Surgiu a necessidade de me conectar com outras mães que estivessem vivendo a mesma fase”, relata.
Inicialmente criado como “Mamães de Lauro”, o projeto cresceu e passou a reunir mulheres de diferentes cidades da Bahia. Hoje, além das dicas de consumo e economia para famílias, a comunidade funciona como espaço de acolhimento e troca de experiências.
“O que quase ninguém fala é que, mesmo em um lugar conhecido pelo calor humano como a Bahia, muitas mães se sentem sozinhas. Existe a expectativa de que a rede de apoio exista naturalmente, mas nem sempre é assim”, explica Michelle.
Segundo ela, os assuntos compartilhados variam conforme a fase da maternidade. Entre gestantes, predominam dúvidas sobre parto, enxoval e preparação para a chegada do bebê. Já no puerpério, aparecem inseguranças relacionadas à amamentação, saúde e rotina.
Com crianças maiores, as conversas passam a envolver escolas, médicos, lazer, restaurantes e até momentos de autocuidado das próprias mães.
“Algo muito bonito começa a aparecer: mães voltando a se olhar, a pensar nelas também”, afirma.

Foto: Carol Bassuma
“Força com afeto”: o que define a mãe baiana
Para Michelle Oliveira, a principal característica da mãe baiana está justamente na combinação entre resistência emocional, acolhimento e coletividade.
“Uma mãe baiana é força com afeto. É aquela que tenta dar conta de tudo, mas não abre mão do colo, da conversa e da rede”, resume.
Ela acredita que a maternidade na Bahia também é atravessada pela fé, pela resiliência e pela capacidade de criar vínculos mesmo em cenários difíceis.
“Ser mãe baiana é transformar a solidão em conexão e fazer disso um lugar de pertencimento”, destaca.
Entre comida farta, expressões marcantes, broncas carregadas de humor e formas intensas de cuidado, a figura da mãe baiana segue atravessando gerações e preservando traços históricos da identidade cultural do estado. Mais do que estereótipos, esses costumes revelam heranças construídas ao longo do tempo e mantidas vivas no cotidiano das famílias baianas.
