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27 September 2021
Filme e novela. Cazarré como o vaqueiro Iremar no longa de Gabriel Mascaro e como o funkeiro MC Merlô de “A regra do jogo” (abaixo): ele 12 tatuagens e usa um desenho falso no peito para o personagem - Divulgação / Divulgação

‘É um supertabu’, diz Juliano Cazarré sobre nu masculino

Sem camisa quase o tempo todo no horário nobre da Globo em “A regra do jogo”, Juliano Cazarré está completamente nu no poético “Boi neon”, vencedor do Troféu Redentor de melhor longa-metragem de ficção no Festival do Rio e também premiado nos festivais de Veneza e Toronto. Enquanto na novela de João Emanuel Carneiro o funkeiro MC Merlô se envolve com duas dançarinas do fictício Morro da Macaca, no filme do pernambucano Gabriel Mascaro, sobre um grupo de vaqueiros em viagem pelo interior do Nordeste, ele mexe com temas ainda considerados tabus no cinema nacional.

No filme, que explora de maneira delicada as nuances de um personagem que, num ambiente bruto, sonha em aprender a costurar, Cazarré se tornou um dos principais assuntos do festival, justamente por causa da nudez e de cenas fortes de sexo.

O filme tem nudez masculina e feminina em proporções semelhantes. No cinema parece que todo filme pode ter um peitinho, mas a gente nunca vê um homem pelado. Um pênis então é um supertabu. Mole não pode, é feio, duro menos ainda. Você não sabe o que é pior. É um tabu muito forte na sociedade — reflete Cazarré, pouco antes de gravar cenas da novela, no Projac.

Para fazer o funkeiro de “A regra do jogo”, o ator de 35 anos raspou os braços e o peito e acredita que isso deixa “a definição muscular” mais aparentemente no vídeo. Na televisão estão à mostra quase todas as 12 tatuagens — apenas a do peito é falsa. Ele é o primeiro a brincar ao falar do figurino do descamisado Merlô, que usa no máximo um colete (sempre aberto):

— Estou exposto na novela também!

Ficar com o corpo em evidência não é exatamente uma novidade para o ator nascido em Pelotas, Rio Grande do Sul, e criado em Brasília. Cazarré já atuou em mais de 15 filmes e também encarou cenas de nudez e sexo no polêmico “A concepção” (2005), sua estreia em longa-metragem, e protagonizou um tórrido ménage à trois em sua primeira vez na TV, na série “Alice” (2008), da HBO. Na época de “Avenida Brasil” (2012), sua segunda novela e um de seus trabalhos de maior sucesso, viu um ensaio que fez, usando terno, mas com a genitália desnuda, “causar” na internet.

— O nosso questionamento (com as fotos) era justamente esse. Qual é o problema da nudez masculina? Qual é o problema do pênis se todo mundo quer ver um peito ou uma bunda? Você abre o jornal e tem a gata da semana, uma mulher com um micro fio-dental, sabe? Mas vivemos num país machista. O cinema é muito machista. Se a atriz é bonita querem logo botar o peito dela de fora — reclama.

Ninfa (Roberta Rodrigues), Merlô (Juliano Cazarré) e Alisson (Leticia Lima): trio funkeiro de 'A regra do jogo' - TV Globo/Divulgação

Ninfa (Roberta Rodrigues), Merlô (Juliano Cazarré) e Alisson (Leticia Lima): trio funkeiro de ‘A regra do jogo’ – TV Globo/Divulgação

QUASE EXPLÍCITO

O ator conta que, ao conversar com amigas atrizes, costuma ouvir delas confissões angustiadas sobre as cenas de nudez que protagonizam no cinema.

Por que tem sempre que aparecer alguma coisa numa cena de sexo? Por que não pode ser apenas sugerida? Em Hollywood, quando cortam para os planos fechados, eles usam dublê de corpo. Lá fora, a gente não vê uma atriz mais conhecida em algo mais explícito porque isso pesa contra ela.

No caso de “Boi neon”, diz, é diferente. Ele estava preparado para rodar as tais sequências e ficou satisfeito com o resultado da cena de nove minutos, sem cortes, com ele e a atriz Samya de Lavor, que rodou o filme grávida.

— Sabia que iria rolar (a cena) e é claro que pensei: “Ah, meu Deus, todo mundo vai ver”. Só que não dá para ficar preso a isso. Acreditava muito no Gabriel (Mascaro), confiava no roteiro do filme, e no personagem. É de super bom gosto, delicado. Não tem uma lente de aumento do tipo “olha, é uma nudeeez”, sabe? Não vira uma coisa: “É um pênis”. Não, ele está lá, tranquilo.

O ator faz questão de esclarecer que tudo não passou de encenação.

— Vendo o filme dá para pensar: “Parece que rolou, será?”. É bem explícito. Você não vê os órgãos genitais, mas acha que viu. Essa é a graça do cinema, né?

Apesar do aparente despudor, Cazarré, que ainda poderá ser visto como um domador de leões em “O grande circo místico”, longa inédito de Cacá Diegues, rodado em Lisboa, reclama do amadorismo que costuma presenciar nos sets dos filmes brasileiros.

https://www.youtube.com/watch?v=zQ-mjeM8BmM

Fonte: O Globo

 

 

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