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28 October 2021

Ex-presidiária, drag queen deu guinada e se tornou empresária e artista internacional

Famosa pelo reality Ru Paul´s Drag Race, Latrice Royale mudou de vida e se tornou um dos símbolos do movimento trans.

A drag queen Latrice Royale não venceu o reality show Ru Paul´s Drag Race (Netflix e Multishow). Mas fez tanto sucesso que, além de apresentar seus shows pelo mundo – só no Brasil foram mais de 10 -, montou uma empresa de gerenciamento de carreira de artistas, especialmente transformistas.

A personagem mais famosa do ator americano Timothy Wilcots foi a primeira estrela do programa americano a aterrisar em Salvador. No fim de agosto ela lotou a festa Templo, no Amsterdam Pop Club. Algumas horas antes, conversou com o CORREIO no hotel.

Qual o porquê de seu nome?

Quando eu era criança e estava na escola, tinha uma grande amiga e ela se chamava Latrice. Quando comecei a fazer drag, foi o primeiro nome que me veio à cabeça. Ela era ótima, linda, fofa.

Já o sobrenome foi sugestão de um amigo porque eu estava indo para uma competição e ainda não tinha sobrenome. Ele lembrou que eu gostava de fudge royal (tipo de bombom de chocolate) e também estava parecendo com um. Adorei a ideia, porque adoro doces e ficou algo saboroso.

Do que mais gosta em ser drag?

A coisa mais recompensadora é me conectar com as pessoas e fazer com que elas se emocionem. É vê-las felizes e excitadas. É conseguir tocar a alma de alguém com a minha arte.

E do que menos gosta?

A parte mais difícil é estar sempre atualizada, com novidades, ser relevante. Não sou novinha e tenho que buscar traduções para que gerações mais novas se conectem comigo. É complicado, mas é recompensador.

Do que mais gosta no Brasil?

Os fãs demonstram a paixão e o amor com uma energia incrível! Além disso, o país é lindo! Estou apaixonada por caipirinha! Posso beber como se fosse limonada, uma atrás da outra. Da última vez que estive em São Paulo, bebi mais de dez! E queria continuar, mas tive que parar porque já estava muito bêbada. E vocês têm o melhor churrasco do mundo! Amo frutos do mar, mas o churrasco aqui é maravilhoso! Poderia comer o dia inteirinho.

E de Salvador?

Visitei o Pelourinho. A cidade antiga de vocês é muito bonita! Amei tudo, tinha muitas cores e uma brisa gostosa. Almoçamos por lá e a comida também estava muito gostosa.

Gostou dos homens daqui?

Bem… tenho muita dificuldade para reconhecer quem é gay e quem não é. Eu tento identificar olhando sempre para os olhos e para a bunda. Agora mesmo, que estou sentada, estou ligada nos olhos de todos aqui (risos).

Como surgiu a sua empresa de empresariamento de artistas?

Criei essa empresa porque vários artistas, como drags e figuras públicas, não costumam ter muita estrutura e proteção no caso de um contratante não pagar ou se alguém nos roubar…

Minha ideia ao criar uma agência foi proteger os artistas e garantir que eles possam não apenas florescer, mas atingir suas metas e se tornarem marcas que cresçam. Foi importante fazer isso porque eu precisava cuidar das pessoas que gosto.

Comecei com uma sociedade, a All Star Management, mas agora estou sozinha, comandando a Latrice Royale Inc. Entre as minhas clientes estão cinco garotas da sétima temporada da Ru Paul´s Drag Race (Kandy Ho, Tempest Dujour, Jaidynn Dior Fierce, Kasha Davis e Kennedy Davenport).

Temos também vários talentos que não foram do programa, mas que são estrelas influentes, como TS Madison, uma ativista trans dos Estados Unidos que já foi prostituta e atriz pornô e hoje é uma das principais vozes pela igualdade trans.

Você fez amigas no programa?

Sou muito amiga das meninas da minha temporada e também das de outras temporadas que encontro pela estrada, fazendo shows pelo mundo. Sempre troco mensagens com várias, como Willam, Manilla Luzon, Shangela, Alyssa Edwards, Milk…

Já RuPaul é muito reservado e está num período muito cheio de coisas na carreira. Ele comanda três programas além do drag race. Mas se faz presente de alguma forma, fica atento ao que a gente faz e, eventualmente, convida pra participação no programa…

Por que você foi presa?

Menino, foi por nada! Eu estava com um remédio de venda controlada no bolso, quando fui parada numa blitz. Nos Estados Unidos é proibido andar com algo assim no bolso. Aí fui posta em liberdade vigiada, cheia de restrições.

Acabei violando umas regras e me mandaram para a cadeia por 18 meses. Foi uma lição de que é preciso ter certeza de que está fazendo as coisas da maneira mais correta possível, porque senão você pode se dar mal. Naquela época, há cerca de 20 anos, havia mais preconceito e menos direitos.

Era arriscado e assustador ser preso sendo gay porque você podia até ser assassinado. Conto mais sobre isso no documentário Gays in Prison, do canal (americano) Logo TV. Foram dois anos de filmagens e deu pra ver que muita coisa continua ruim até hoje.

Que dicas daria para uma drag queen iniciante?

A coisa principal é, por favor, ter algum talento! (risos) Saber se maquiar bem não faz de você uma drag queen estrelada! Desculpem, queridinhas, mas tem que ter talento acima de tudo. Sejam autênticas nos seus talentos, tenham certeza do que é verdadeiro em vocês. Não dá para ter sempre imitadoras de imitadoras. Tentem ser únicas.

Fonte: Correio / Foto: Matheus Thierry/Divulgação

 

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