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19 January 2022

Fazer humor ficou mais perigoso

Alguns dos poucos momentos divertidos da campanha eleitoral de 2018 se deveram ao talento do humorista Marcelo Adnet, 37 anos. Ao encenar sátiras dos candidatos à presidência e ao governo do Estado do Rio de Janeiro, feitas por meio de imitações encomendadas pelo jornal O Globo, Adnet trouxe irreverência a um ambiente repleto de ódio e fanatismo. Para fazer o brasileito rir, o comediante estudou exaustivamente as frases e os vícios de linguagem dos imitados, produzindo uma série hilariante. Mas nem tudo foram flores. A caricatura do candidato Jair Bolsonaro foi recebida com ameaças de morte — e Adnet viu seu nome achincalhado por “fake news”. Sua reação foi denunciar o caso à polícia e processar criminalmente aqueles que o atacaram pelas redes sociais. “Fiz um número de comédia e fui ameaçado de morte por mais de uma pessoa”, disse Adnet nesta entrevista à ISTOÉ. “Há um tipo de censura que já é uma realidade. As pessoas já estão sendo agredidas ou morrendo nas ruas, assassinadas por sua posição política. O Brasil já está numa situação de grande ameaça à democracia”.

Você recebeu ameaças por causa da imitação dos políticos?

Na primeira do Bolsonaro, sim, recebi algumas ameaças do tipo “quando você vier na minha cidade vou te bater” ou “vou te dar um tiro de 12 na cara”. Fui ameaçado com tiros e porradas. Foi uma ou outra pessoa, não é todo mundo que chega com um tiro na ponta da língua. É uma minoria. E não sei se as pessoas fariam isso de verdade. Mas temo pela minha própria vida. Precisei entrar na Justiça contra essas pessoas para saber o que elas pretendem. Não quero dinheiro, não quero vingança, não quero nada disso. Só quero defender o direito do brasileiro de opinar. Não cometi nenhum crime na minha imitação e merecia o mínimo de respeito.

Você entrou na Justiça contra quem te ofendeu?

Exatamente. É um processo que está correndo em sigilo, eu não tenho os detalhes dele, mas a gente acionou essas pessoas por ameaça. Houve algumas que criaram “fake news” com meu nome e estão sendo processadas por difamação e calúnia.

O que você acha desse baixo nível de tolerância para o humor durante a campanha eleitoral?

Os brasileiros estão pagando um mico histórico, uma vergonha internacional. Os gringos olham para a gente com uma cara de “o que está acontecendo?, o que essas pessoas estão fazendo, porque essas pessoas estão passando por essa situação?”. É um momento totalmente estapafúrdio, ilógico, irracional. Eu não sei explicar por que a gente chegou neste ponto. O governo do PT errou, criou uma bola de neve, um fantasma. Mas o monstro do anti-petismo cresceu muito além do que se imaginava e acabou por deixar muita gente com raiva. Veja o tipo de clima que a gente está vivendo. Não é nada democrático. Quando insisto em fazer meu papel na comédia, quando vou à Justiça, estou, na verdade, pequenininho, no meu microcosmo, lutando para que a gente tenha direito de se expressar.

Normalmente a política oferece uma boa matéria-prima para a comédia. Ficou arriscado fazer humor político?

Virou arriscado, mas a gente não pode parar por isso. Porque acho que o objetivo daqueles que ameaçam, daqueles que produzem notícias falsas contra as pessoas que se expressam, é fazer com que a gente pare. Querem que a gente sinta medo e se cale. Rola uma ameaça organizada, não é uma coisa espontânea. É uma ameaça que vem de algum lugar e a gente não consegue saber exatamente de onde.

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