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6 May 2021
Festa em homenagem ao padroeiro dos garimpeiros tem 164 anos de existência (Foto: Reprodução)

Festa de Nosso Senhor dos Passos pode ser tombada

Através de uma ação desencadeada pela Sociedade União dos Mineiros de Lençóis (a 394 km de Salvador), uma equipe multidisciplinar do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac) está acompanhando desde o dia 23 de janeiro as festividades preparatórias para a comemoração centenária do padroeiro dos garimpeiros, Nosso Senhor dos Passos, cuja culminância acontece dia 02 de fevereiro.

O processo para o reconhecimento da festa com 164 anos de história como patrimônio cultural de natureza imaterial tem o apoio do Ministério Público da Bahia (MPE), que recebeu denúncia sobre a alteração dos festejos em 2015, quando a paróquia local não permitiu que a União dos Mineiros participasse da organização e não aceitou a realização de tradicionais manifestações que caracterizam a sincronia religiosa.

A expectativa para a edição 2016 é que tudo aconteça dentro dos costumes, pois em reunião realizada, no último dia 26, com o arcebispo primaz do Brasil, dom Murilo Krieger, ele prometeu aos representantes do Ipac e do MPE, apoio à pesquisa do Ipac (em andamento), que irá gerar relatório técnico para processo de reconhecimento como patrimônio imaterial.

O religioso também defendeu a preservação da sua característica histórica de unir, na lavagem da escadaria, capoeiristas, seguidores de religiões de matriz africana, ternos, reisados dentre outras manifestações da cultura popular. “Não pode haver riscos de descaracterização de uma cultura local, sobretudo por ser influenciada no seio do catolicismo”, afirmou dom Murilo.

Para o promotor Augusto César Carvalho de Matos, autor da recomendação emitida em favor da preservação da festa com suas características originais, diante da eminência de perda de algumas particularidades, “o MP se viu obrigado a abrir inquérito público, garantindo a pesquisa e o registro, para evitar uma perda irreparável”, enfatizou.

Diretor geral do Ipac, órgão vinculado à Secretaria Estadual de Cultura, João Carlos de Oliveira disse que a gestão e proteção dos patrimônios materiais ou imateriais precisam do apoio de diversos órgãos públicos, ressaltando que, a exemplo do trabalho realizado para a conservação da festa original em Lençóis, ” a interferência do Ministério Público tem sido constante em benefício dos bens culturais da Bahia”.

Conforme os registros dos festejos celebrando Nosso Senhor dos Passos, no dia 02 de fevereiro de 1852 um grupo de garimpeiros de Lençóis recebeu a imagem vinda de Portugal, com passagem pelo Porto de Salvador, subindo pelos rios Paraguaçu e Santo Antônio e seguindo por longas horas com a tropa pelos desfiladeiros e montanhas que formam a Chapada Diamantina.

Segundo o diretor de Preservação do Patrimônio (Dipat) do Ipac, Hermano Queiroz, “o ciclo de celebrações dos Passos marca a vivência coletiva de trabalho, religiosidade, entretenimento e práticas coletivas de Lençóis, fundamental para essa população”. Ele informou ainda que após os estudos é elaborado um dossiê e a festa poderá ser inscrita na categoria de Patrimônio Imaterial, de acordo com a Lei nº 8.895/2003 e decreto estadual nº10.039/2006.

“A festa de Senhor dos Passos faz parte da nossa identidade, independente de convicção religiosa. Difícil imaginar que um dia ela deixe de acontecer em sua plenitude. Acho que deve ser fortalecida para que os filhos dos nossos filhos ainda possam viver estes momentos”, afirmou a dona de casa Helena da Cruz, 47 anos, que acompanha os festejos desde criança.

Por Miriam Hermes / A Tarde
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