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30 July 2021

Fotógrafo brasileiro captura rotina cruel no coração da batalha em Mossul

RIO – Por trás da fumaça e dos tiros de uma guerra brutal, esconde-se outra narrativa na icônica Mossul, cidade que cumpriu o doloroso papel de capital do Estado Islâmico (EI) no Iraque. Numa espiral de sofrimento, seus moradores viram o lar esvair-se das suas mãos ao longo de três anos, desde que os jihadistas tomaram o controle, desencadeando confrontos que, enfim, culminaram na ofensiva de retomada bem-sucedida do Exército nos últimos nove meses. Enquanto as tropas do governo conquistavam, casa por casa, aquela que já havia sido a segunda metrópole do Iraque, havia quem estivesse ali para ficar ao lado da população. Talvez sejam poucos os que tanto persistiram em registrar cada movimento das forças de elite do Iraque contra o EI quanto o fotógrafo brasileiro Gabriel Chaim.

Com experiência também na Síria, o paraense que mora em São Paulo chegou a Mossul em abril de 2016 e, por meses, passou 24 horas do dia na linha de frente. Não tirar o pé do centro dos confrontos é o seu jeito ideal de relatar em detalhes o sofrimento no constante fogo cruzado de uma exaustiva batalha.

— Não gosto de acompanhar uma guerra só por algumas horas. Acompanhar o dia a dia dos soldados é a melhor forma de contar o que acontece por trás da batalha — diz Chaim, que tinha a ajuda de uma tradutora e arriscava algumas palavras em árabe para falar com as tropas.

Em Mossul, estava lá nas operações de resgate a civis, cujas casas eram frequentes alvos de bombardeios da coalizão liderada pelos EUA contra o EI. Sua missão, diz, é fazer quem estava dentro daquele confronto, sem via de saída, ser ouvido pelo mundo.

Eles querem uma vida melhor, como todos nós no Ocidente. Vivem no meio de atiradores que tentam acertá-los. Querem gritar. mas não tem mais voz e forças para expressar o que sentem. Desejo mostrar que, em paralelo às nossas vidas normais, há crianças que perdem seu futuro diariamente.

Chaim continua no Iraque e partirá para uma nova cobertura, não revelada. Viu o fim da guerra em Mossul e a volta das famílias. Mas sabe que a ameaça dos jihadistas não acabou por ali:

Milhares fugiram com civis. Muito em breve, haverá novas rebeliões com fugas.

Entre civis que se solidarizaram com o povo iraquiano, brasileiros que viajaram a um dos cenários mais assustadores do mundo para usar seus conhecimentos em favor de homens, mulheres e crianças cujos dramas, diante do rastro de destruição deixado para trás, ainda estão longe de acabar. Ao GLOBO, eles relataram suas arriscadas jornadas dentro de uma história para não ser esquecida. Conheça também as histórias Paulo Reis, médico; Tatiana Ciarella, enfermeira e Felipe Dana, fotógrafo.

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