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16 June 2021

“Homem que não dá prazer a mulher é um babaca”, diz educadora sexual baiana

No dia 31 de julho de cada ano é comemorado o Dia do Orgasmo. Apesar disso, um terço das mulheres brasileiras e 80% das estrangeiras, na prática, não têm o que comemorar porque nunca chegaram ao orgasmo. O dado foi obtido em levantamento feito pelo Projeto Sexualidade (ProSex), da Universidade de São Paulo (USP).

Para ajudar as integrantes desse grupo a desvendar os segredos do orgasmo e dar dicas de como como estimular a mulher a achegar ao clímax em uma relação sexual, a redação do Varela Notícias conversou com a educadora sexual e pesquisadora de sexualidade da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Aline Castelo Branco.

Durante o bate-papo, ela deu dicas para homens e mulheres sobre como tingir o ápice do prazer sexual  e desvendou mitos que envolvem o sexo. Leia:

 

Um terço da mulheres brasileiras e 80% das mulheres no mundo nunca tiveram um orgasmo. Na sua opinião, por que isso acontece?

Aline Castelo Branco: A mulher teve seu prazer renegado por séculos. Não podendo ter o orgasmo. Aliás, nem sabia o que era o orgasmo no século XVII, XVIII. Não se tinha essa configuração de orgasmo feminino, apenas do masculino. Então apenas o homem tinha o prazer, a mulher tinha o sexo para procriação, ter e gerar os filhos. No início do século XIX, com a criação do vibrador, foi que essa mulher viu a possibilidade da existência de diversas sensações que ainda não sabia o que era, tanto durante o sexo quanto quando mexia nas suas partes íntimas, na sua vagina e vulva. Mas falando da atualidade, ainda hoje, a mulher não tem o emponderamento do seu corpo e isso acaba levando com que esse orgasmo feminino seja uma coisa en passant ou não sentida.

Você acha que o homem de hoje, mesmo com tantas mudanças, ainda não se preocupa com o prazer da mulher?

ACB: Primeiro, o homem que não se preocupa em dar prazer a mulher é um babaca. Segundo, nós somos construídos socialmente da seguinte maneira: o homem já nasce aprendendo a tocar no pênis dele. Já nasce aprendendo a se masturbar. Ao se tocar, ele sabe que aquilo estimula sensações e ele vai aprender através daquele toque o que é o prazer. A mulher não. A mulher, a partir do momento que toca na vagina, já vem uma repressão doméstica de uma educação sexual que a gente não teve. É muito difícil hoje você encontrar qualquer pessoa que conversa com os pais sobre sexo, que teve algum tipo de educação em casa sobre sexo. Se perguntar, a maioria vai dizer que não ou que o pai transferiu isso para uma outra pessoa. Esse homem que não procura estimular, pensa só em si, ele tá cometendo um grande erro para sua relação. Os melhores homens, eu costumo dizer, ou os homens para casar, são aqueles que brincam com o seu clitóris. Se o homem brincar com seu clitóris, meu bem, você pode pegar ele  e amarrar, levar pra casa porque está difícil. A maioria dos homens hoje não sabe brincar com seu clitóris.

 De que forma a educação doméstica influencia nas relações sexuais atualmente?

ACB: Essa educação sexual acabou de certa forma sendo repressora e não emancipadora. O homem já nasce com a educação sexual emancipadora de que ele é o provedor, que pode ter quantas mulheres ele quiser, pode transar, gozar, se tocar, se masturbar e a mulher não. A mulher ela não nasceu pra tocar o seu corpo. Essa educação sexual interferiu no processo de travamento na mulher de hoje.

 Como mudar isso?

ACB: É preciso entender também que, no caso da mulher, além desse sexo está na cabeça ela tem que contar com estímulos externos. A mulher tem uma dificuldade maior de chegar ao orgasmo do que o homem, isso é fato. Porque as estimulações nervosas da mulher estão numa parte mais difícil de chegar. A mulher pode chegar no orgasmo clitoriano, na parte mais externa, ou vaginal, mais interna. Então essa falta de sensibilidade do parceiro no toque pode viabilizar ou retardar o orgasmo. Eu trabalho muito com a questão do emponderamento feminino. Quando essa mulher se acostumar a se masturbar, conhecer as áreas onde tem maior sensibilidade, ela pode fazer a junção do sexo na cabeça, do controle racional do sexo, com o toque e a sensibilidade. Como ela já vai conhecer as regiões onde tem maior sensibilidade, ela vai chegar mais rápido a esse orgasmo. Mas muita mulheres passam despercebidas por isso. Para chegar ao orgasmo você precisa ter conhecimento do seu corpo e saber que sexo é cabeça. Pronto.

Outra coisa que é super legal, e eu desenvolvo nas minhas pesquisas, é que essa sexualidade, esse prazer ele pode ser aprendido. Você pode aprender a chegar ao orgasmo, aprender a ter a sua sexualidade. A sexualidade é aprendida apesar de ser naturalizada. Ninguém ensina a gente a transar. A gente vai aprendendo, conhecendo o outro, se tocando, beijando o cara. Mas hoje o trabalho que desenvolvo é que essa sexualidade pode ser aprendida ela pode ser ensinada para dar o emponderamento a mulher.

 É possível a mulher sentir chegar ao orgasmo através de outras práticas, como o sexo anal?

ACB: Inclusive tem muitas mulheres que preferem a estimulação pela via do períneo, pela via anal. E ela se sente muita estimulada porque a região do anus, do períneo, é uma região de terminações nervosas e que proporciona um estímulo bem maior. Mas isso socialmente é abafado, socialmente não é aceitável. E acaba criando um estigma sobre a relação anal. Mas encontramos relatos que há muitas mulheres que sente mais prazer pelo ânus do que pela vagina. Se devidamente estimulado pelo parceiro, o sexo anal pode não somente levar a mulher ao orgasmo, mas a várias sensações. Ela pode sentir, por exemplo, no ato da penetração anal, a estimulação no clitóris. São duas formas de prazer.

A mulher ainda hoje, embora tenha melhorado bastante, ela tem essa concepção de que o sexo é para procriação e isso acaba impedindo ela de sentir prazer. Outra coisa que é super importante, que é uma concepção minha e de outros especialistas da área é de que a relação do orgasmo, da sensação de sentir orgasmo ou de chegar ao orgasmo e gozar ela está na cabeça. Ou seja, sexo é cabeça. Não tem muita relação com o amor, sentimento ou com a relação que você está. Claro que quando há uma relação de sentimento o sexo é melhor, mas não necessariamente. Você pode ter sexo, ter orgasmo, sem gostar da pessoa. Chegar ao prazer sem ter uma relação afetiva. Porque o sexo tá relacionado a cabeça. Esse desejo parte da razão, como dizia Kant. Então as pessoas vão entender que na hora do sexo não tem essa coisa de química, eu desprezo um pouco isso. Você pode ir pra cama com um desconhecido ou com conhecido e chegar ao prazer, orgasmo, se você souber controlar e lidar com a razão, com a mente e com seu sentimento que é o coração.

 Os chamados “cardápios afrodisíacos realmente funcionam?

ACB: Pessoalmente eu não acredito muito em comidas afrodisíacas. Isso soa mais mito. Algumas comidas tem o poder nutritivo maior do que outras. Mas não há nenhuma comprovação cientifica que isso vai facilitar a chegada ao orgasmo, principalmente para mulher.

Existe algum alimento ou técnica que pode ajudar a mulher a chegar com mais facilidade ao orgasmo? 

ACB: O que eu aconselho nos cursos, entrevistas e pesquisas é justamente o autoconhecimento do corpo. Se você quer aprender a chegar ao orgasmo o primeiro passo é utilizar um vibrador, estimuladores de clitóris, massageadores clitorianos, produtos eróticos. Assim, a pessoa vai se conhecer e saber qual o melhor ponto de prazer para ela e, a partir daí, passar pelo seu parceiro. Ter um diálogo entre o casal na hora da transa para facilitar o desenvolvimento dessa mulher e fazer ela chegar ao prazer. Esse negócio de comida não funciona muito não. Tem também uma pílula da felicidade, tipo de viagra feminino, mas também não se chegou a nenhuma comprovação de que há estímulo. A mulher é um fenômeno e a gente precisa entender que, além de colocar o sexo na cabeça, ela tem que ter o toque, os sussurros no ouvido, para se estimular.

Uma coisa que acontece muito é que a mulher quando descobre a masturbação ela sente o prazer através do toque e da mexida no clitóris. Quando ela vai transar com o parceiro ela esquece de estimular o clitóris e quer ter o prazer pela vagina, pela penetração. Isso acaba implicando muito na hora do sexo. Ela acaba se perdendo e não sente prazer nem por um lado e nem pelo outro. E é muito difícil a mulher chegar ao orgasmo pela vagina, a maioria chega ao orgasmo pelo clitóris.

Orgasmos múltiplos realmente existem? 

ACB: Orgasmos múltiplos realmente existem, mas é preciso ter muito cuidado com isso. Muitas mulheres e homens ficam querendo chegar a isso juntos e acaba fazendo com que a mulher fique reprimida na cama. É uma coisa rara, nem todas as mulheres conseguem, mas existe. Uma em um milhão, acontece.

 O tamanho do pênis influencia no prazer da mulher? 

ACB: O tamanho do pênis independe, não tem qualquer tipo relação com o prazer feminino. Não há nada que se comprove que um pênis de 18 ou 20 centímetros vai dar prazer aquela mulher. O que tem que se entender é que cada vulva, cada vagina é feita de uma maneira diferente para encaixar com determinado tamanho de pênis, o Kama Sutra diz isso. É como se houvesse cada tampa para sua panela. Às vezes, um pênis muito grande vai ficar desconfortável para a vagina da mulher e ela não vai sentir prazer. Ela pode acabar fingindo que tem orgasmo. E o fingimento é a pior coisa que ela pode fazer na vida. Ela vai acabar enganando a ela mesmo, passar anos numa relação onde  nunca chegou ao orgasmo. Se um dia ela descobrir como é vai dizer ‘Ai meu Deus, é isso? Quanto tempo eu perdi’. Então a relação do pênis com a vagina independe para o prazer. Tem mais a ver com a relação de toque e estimulação, é questão de cabeça. Se o cara tiver um pênis muito pequeno e ele conseguir estimular essa mulher de outras maneiras, com a língua, com o toque e essa mulher tiver com o sexo concentrado na cabeça, ela vai conseguir chegar ao orgasmo.

Fonte: Varela Notícias

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