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20 June 2021

Inadimplência dos idosos cresce 8,56% em um ano, aponta SPC Brasil

Aos 72 anos, a pensionista Corália Oliveira Cerqueira já não sabe mais calcular o quanto deve – são duas contas de luz atrasadas, no valor de R$ 200, uma dívida de R$ 700, outra de R$ 200 para uma filha e mais algumas contas. Ela, que ajuda a sustentar duas filhas e um neto, faz parte dos mais de 5 milhões de idosos, entre 65 e 94 anos, que estão com débitos atrasados no Brasil.

Esse, inclusive, é o grupo de inadimplentes que mais cresceu em agosto deste ano em relação ao mesmo mês do ano passado – com aumento de 8,56%. O dado é do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL).

Isso ocorreu, sobretudo, devido ao empréstimo consignado. E se depender do governo, o percentual de idosos endividados deve aumentar, já que no último dia 15 a Câmara aprovou Medida Provisória 681, apresentada pelo Executivo para ampliar de 30% para 35% o limite de desconto em folha, conhecido também como crédito consignado, sendo que esses 5% a mais só podem ser usados para pagar dívidas com cartão de crédito.

Segundo o levantamento do SPC, enquanto a média de crescimento de devedores no país foi de 4,86%, o aumento de idosos endividados no período de um ano foi de 8,56% – a parcela de devedores entre 65 e 84 anos cresceu 8,32%; já entre 85 e 94 anos, a inadimplência está 10,47% maior.

“Esse aumento na inadimplência dos idosos pode ser explicado por dois motivos:  primeiro porque eles têm uma participação menor (representam 8,82% dos devedores do país). Ou seja, qualquer alteração na faixa faz uma grande diferença. Segundo porque os idosos têm aumentado seu consumo”, explica a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti. Segundo ela, os idosos estão gastando mais, inclusive com eles mesmos e não só com a família.

Consignado

A economista ressalta ainda que o empréstimo consignado teve grande influência sobre o aumento dos endividados idosos neste período. “A renda que sobra é menor e, consequentemente, o idoso fica inadimplente em outras categorias de crédito”, revela, complementando que cerca de um terço da remuneração de aposentados e pensionistas pode ser comprometida em operações com o consignado.

De acordo com a advogada do Centro de Apoio ao Aposentado e Trabalhador (Cenaat), Vera Brigatto, essas dívidas podem ser explicadas pelos constantes financiamentos, que resultam numa bola de neve. “O aposentado deseja ajudar a família, mas o dinheiro não rende o suficiente. Então, muitos recorrem ao consignado. Como as contas e os juros estão mais altos, ele volta a tomar empréstimos, ampliando ainda mais a dívida”, comenta.

Para o especialista em Direito Previdenciário e presidente da Asaprev (Casa do Aposentado), Marcos Barroso, o consignado acaba atraindo as pessoas acima de 65 anos pois o acesso é fácil. Ele ressalta que o idoso – que já fora considerado um ‘fardo’ pelas famílias – hoje também paga as contas.

“A principal razão para o endividamento desta faixa é a perda do poder de compra. Com a crise, o desemprego faz com que os idosos se comprometam, ainda mais, com o orçamento da família”, diz.

Por: Correio 

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