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19 October 2021

Mesmo com leilões do BC, dólar fecha em alta de mais de 2% e tem novo recorde, a R$ 4,145

Em mais um dia de nervosismo, o Banco Central (BC) entrou vendendo US$ 4 bilhões no mercado de câmbio com os chamados leilões de linha e dessa forma segurar a cotação do dólar comercial, que atingiu R$ 4,152 no início da tarde desta quarta-feira, um novo recorde desde o início do Plano Real. A autoridade monetária primeiro colocou em leilão US$ 2 bilhões, às 15h, o que fez com que a divisa se afastasse um pouco das máximas. Outro leilão de igual volume foi negociado na sequência. Ainda assim, a divisa terminou o pregão com alta relevante, cotada a R$ 4,143 na compra e a R$ 4,145 na venda, alta de 2,24% ante o real. Já a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) caiu 2%, indo para os 45.340 pontos.

Foi a primeira vez, desde que a autoridade monetária retomou os leilões de linha — que são uma oferta de dólares com compromisso de recompra —, que foram anunciadas duas operações no mesmo dia. A autoridade monetária também anunciou dois leilões de swap (que equivalem a uma venda de moeda no mercado futuro). O realizado nesta quarta-feira, de um total de US$ 1 bilhão, apenas 20% foi de fato efetuado. Um outro, de igual valor, está programado para quinta-feira. Na visão de analistas, a baixa demanda pode indicar que os investidores veem uma saturação desse tipo de estratégia e querem outro tipo de intervenção – como os leilões de recompra e a venda direta de dólares. O estoque de swaps está em US$ 104,1 bilhões.

— A intenção do BC com esses leilões é reduzir a volatilidade, que está em um nível elevado. Mas nem sempre isso funciona, já que depende de outros fatores que estejam ocorrendo. Nesta quinta-feira, os dados negativos da economia chinesa e a incerteza sobre o ajuste fiscal — disse Tatiana Pinheiro, economista do Santander.

A moeda até abriu o pregão em queda, após o governo conseguir manter 26 de 32 vetos. No entanto, ainda falta o Congresso Nacional avaliar o que é considerado o mais importante, que é o veto da presidente Dilma Rousseff ao aumento de salário de servidores do Poder Judiciário.

— Nem tudo foi ganho e a situação ainda está complicada. E preocupa o fato de o Congresso de um lado não querer votar o aumento de impostos e, do outro, ameaçar aumentar despesas — disse Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio Treviso Corretora.

Além do ambiente político, que dificulta a aprovação das medidas de ajuste fiscal, os investidores estão de olho na decisão da Fitch, que em breve deverá divulgar a revisão da nota de crédito (rating) do Brasil. Nessa agência, o país ainda está com duas notas acima do grau especulativo. Na Moody’s essa margem é de apenas uma nota e na Standard & Poor’s o Brasil não é mais grau de investimento.

PREOCUPAÇÃO COM AJUSTE FISCAL

A moeda chegou à mínima de R$ 4,016 pela manhã, mas logo depois começou a escalada de alta devido a rumores de mudanças no governo e da possibilidade de impeachment da presidente Dilma. E o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), votou a declarar que segue contra a criação de uma nova CPMF mesmo com a redução do número de ministérios pelo Executivo.

Após as 10h um movimento de compra começou a puxar o dólar para cima. As moedas lá fora também estão se desvalorizando um pouco — afirmou Felipe Silva, analista da Saga Capital

Na terça-feira, a alta foi de 1,81%, com a divisa chegando a R$ 4,054. Também pesam no mercado dados divulgados nesta quarta-feira que mostram desaceleração na economia da China e a expectativa de aumento dos juros nos Estados Unido.

A moeda americana está estável no exterior. O “dollar index”, que mede o comportamento da divisa frente uma cesta de dez moedas, com leve queda de 0,03% no momento do encerramento dos negócios no Brasil. No entanto, em relação às moedas de países emergentes, se fortaleceu.

Na avaliação de Steve Barrow, estrategista do sul-africano Standard Bank, o dólar continuará ganhando força frente a outras moedas mesmo que a perspectiva de aumento da taxa de juros nos Estados Unidos seja postergada. Isso porque a União Europeia e o Japão devem continuar a adotar medidas de estímulo monetária em suas economias, enfraquecendo o euro e o yen em relação à moeda americana.

“A continuidade do fortalecimento do dólar contra o dólar e yen é baseada no fato de que o Banco Central Europeu e o Banco do Japão ainda estão suscetíveis a facilitar a política monetária ainda mais. O BCE já iniciou conversar sobre ampliar os estímulos (quantitative easing) e nós pensamos que o Banco do Japão poderia fazer o mesmo no próximo mês”, afirmou, em relatório a clientes.

PETROBRAS NO MENOR VALOR EM MAIS DE DEZ ANO

É também o cenário político que faz com que a Bolsa caia forte nesta quarta-feira. O analista técnico da Guide Investimentos Lauro Vilares lembra que, apesar da vitória parcial do governo na terça-feira à noite, ainda há uma grande dúvida sobre a aprovação das medidas consideradas essenciais para o ajuste fiscal, como o aumento de impostos.

— Há uma grande preocupação com as votações que são consideradas mais importantes. A situação segue bem complicada e sem esse ajuste fica mais difícil governar, independente de quem esteja no governo — avalia, que acrescenta também que os dados negativos na China também pressionam as Bolsas pelo mundo, em especial as ações de empresas exportadoras de commodities

Com essa pressão, os papéis da Petrobras renovaram as mínimas desde 2004. No caso das preferenciais (PNs, sem direito a voto), a cotação está no menor patamar desde setembro de 2004, ao cair 2,15% e fechar cotada a R$ 6,82. As ordinárias (ONs, com direito a voto) recuaram 1,07%, a R$ 8,26, também o menor patamar em onze anos.

Os bancos, que possuem o maior peso na composição do Ibovespa, também operaram em terreno negativo. Os papéis preferenciais do Itaú Unibanco recuaram 3,96% e os do Bradesco 3,39%. O Banco do Brasil registrou desvalorização de 3,56%.

Os dados negativos da economia chinesa levaram para baixo as bolsas asiáticas. O índice Hang Seng, de Hong Kong, fechou em queda de 2,26% e o Shangai recuou 2,19%. No Japão, o índice Nikkei fechou em queda de 1,96%.

Apesar do recuo nas bolsas asiáticas, os principais indicadores do mercado acionário europeu operam em alta. O DAX, de Frankfurt, fechou em alta de 0,44% e o CAC 40, da Bolsa de Paris, teve leve valorização de 0,10%. O FTSE 100, de Londres, registrou alta de 1,62%. Nos Estados Unidos, o Dow Jones caiu 0,31% e o S&P 500 registrou desvalorização de 0,20%.

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