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1 March 2021

Ministério da Saúde quer recontar as mortes por covid-19 alegando que estados e municípios estariam manipulando informações para se beneficiar de recursos federais

OMinistério da Saúde quer recontar as mortes por covid-19, alegando óbitos a mais por outras doenças. Na avaliação da cúpula da pasta, Estados e municípios estariam manipulando informações para se beneficiar de recursos federais. Já cientistas brasileiros afirmam o oposto: o número de vítimas é muito maior e essa mudança de discurso, aliada à alteração na metodologia de divulgação e na omissão de dados, seria manobra para se criar a falsa sensação de que a doença já estaria sob controle.

Ontem, pelo quarto dia seguido, o governo deixou de publicar dados por volta das 19 horas. O boletim só saiu às 22 horas: mais 904 óbitos e mais 27.075 contaminações – os números gerais, de 35.930 óbitos e 672.846 infecções – deixaram de ser apresentados. Ainda neste sábado, o mais prestigiado ranking científico sobre a covid-19, da Universidade Johns Hopkins, nos EUA, deixou de apresentar dados sobre Brasil, após a mudança feita pelo governo. Mas depois voltou a compilar os dados do País.

A polêmica sobre a qualidade dos dados foi levantada ontem pelo futuro secretário da Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Carlos Wizard, em entrevista a Bela Megale, de O Globo, em que apontava que o órgão vai recontar óbitos no Brasil porque os dados atuais seriam “fantasiosos ou manipulados” e as estatísticas deveriam ser reduzidas.

Indagado pelo Estadão, disse que o governo Bolsonaro não pretende “desenterrar mortos”. “O que pretendemos é rever os critérios dessas mortes”, comentou. Segundo ele, uma “equipe de inteligência militar” identificou sinais de fraude em dados prestados por Estados e municípios, mas evitou dizer quais e quantos. “Estão inflacionando os dados da doença.”

Wizard disse que a pasta levará o assunto “à esfera competente”, sem detalhar. “Temos uma equipe de militares trabalhando nisso, sob o comando do general Pazuello.” Na avaliação do futuro secretário, o governo “tem enfrentado quatro guerras, a da covid, a da economia, da informação e a da política.”

Procurados pelo Estadão, virologistas e epidemiologistas consideram quadro oposto. Nas contas de Domingos Alves, da USP em Ribeirão Preto, o número de mortes no Brasil seria 40% maior. “Sem ser alarmista”, diz o integrante da equipe Covid-19 Brasil. Levantamento da UFPel em 90 municípios, divulgado semana passada, aponta que só um em sete casos vai para estatísticas oficiais.

Alves explica que a subnotificação ocorre pelo atraso na contabilização dos óbitos, que pode levar uma semana. Outro problema é o excesso de mortes de síndrome respiratória aguda grave (SRAG). No ano passado, de 6 de março a 6 de junho, foram 359 mortes; em 2020, 7.676. Ou seja, grande parte dos casos pode ser de covid-19.

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