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4 August 2021

Na base da mímica, ambulantes se viram para vender comes e bebes a gringos na Barra

Tem ambulante que pode não saber falar, mas se comunica na escrita

As mãos talvez nunca tenham sido tão úteis para a comunicação como na Copa. É unânime entre os turistas a dificuldade em encontrar comerciantes que falem inglês ou compreendam um idioma que não seja o português. Assim, quem não consegue arriscar nenhuma palavrinha, teve que se virar na  conversa com os dedinhos.

É o caso da ambulante Filirmina Santana, conhecida como Conceição, na orla da Barra. “Quando ele chega, eu não converso, não, minha filha. Eu mostro os dedos, assim, para explicar a promoção da cerveja, que é três por R$ 5. Aí ele entende e eu repito: ‘Yes, cinco’”, explica a comerciante, mostrando três dedos em uma mão e cinco na outra.

Com sorriso no rosto, Conceição não se importa de ainda não ter aprendido palavras de outras línguas. “A gente se vira como pode, aqui. Ele (turista) vem e mostra o que quer. Às vezes, eu não entendo e mostro as latinhas”, ensina a vendedora de 61 anos, que apela ao jeitinho brasileiro para manter (ou criar) a freguesia.

Filirmina Santana, a Conceição, mostra como explica ao gringo com quantos reais dá para levar três latinhas (Foto: Betto Jr)

Fora da Fan Fest, já que apenas os patrocinadores podem vender dentro da festa, ela, assim como outros ambulantes, acabam tendo vantagem com essa comunicação gestual.

“Tem muitos que vêm aqui e não pegam o troco. Eu chamo de volta, mas eles vão embora, rápido. Ontem mesmo um gringo pagou 10 reais na cerveja. Enquanto eu estava pegando o troco, ele foi embora e eu não achei mais. Isso acontece direto aqui, comigo. O que posso fazer?”, questiona Conceição. E quando tem jogo do Brasil, que a Fan Fest fica mais cheia, como é que faz? “A gente grita em português, mesmo”, diz.

Sugar cane

Já o vendedor de caldo de cana Edmundo de Jesus tentou uma saída para traduzir e explicar o caldinho doce à moda brasileira. “Eles ficam olhando e eu digo é ‘sugar cane’. Aí eles entendem que é doce e aceitam provar”, garante o vendedor. “Eu não estou tendo dificuldade para vender, não. Achei até que poderia ser mais difícil, mas não está sendo não”, relata.

As maiores dificuldades para se comunicar é o inglês e, claro, o chinês. “Espanhol dá para entender, mas quando vem um inglês ou um ‘china’, fica complicado. Mas a gente dá um jeito”, afiança o vendedor Edmundo.

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Edmundo dá seu jeito de fazer o gringo saber o que está comprando: ‘vou falando até que eles entendam’ (Foto: Betto Jr)

Para conquistar os gringos, é toda uma observação por parte do vendedor. “Eu vejo que eles ficam olhando para a cana, tentando entender. Aí eu vou, me aproximo e eles perguntam o que é, se é bambu. Mas aí eu explico, digo que é garapa, cana, doce, vou falando até que eles entendam”, narra o vendedor.

E, se não entende, Edmundo coloca um pouquinho da cana com umas gotinhas de limão para tentar conquistar o cliente. “O limão é o segredo. Todos que provam, gostam e acabam comprando. Tem quem pense que é caipirinha”, diverte-se o vendedor.

Mas, além do comércio, ele garante que o maior lucro com o caldo é divulgar um pouco dos hábitos brasileiros. “Eu quero que ele prove e que não jogue fora. Para mim, o lucro não é só vender o caldo. Eu quero que goste de estar tomando o caldo de cana. O lucro é saber que ele está conhecendo o que bebe, conhecendo mais a gente”, comenta Edmundo.

Placas

Tem ambulante que pode não saber falar, mas se comunica na escrita. Pela Barra e onde tem estrangeiros, não é difícil achar um isopor com “beer” (cerveja), “water” (água) ou “hot dog” por aí. Alguns se arriscam gritando “beer”, mas tem quem prefira só escrever, para não fazer feio em outra língua e acabar espantando a clientela.

A vendedora de cachorro quente Ana Célia Jesus tem estampado no carrinho, de forma bastante visível, um “hot dog” em vermelho. “É para despertar o cliente que aqui tem ‘dog’, para saber o que estou vendendo. E todo mundo sabe o que é um hot- dog, né?”, destaca a comerciante.

Ela também apela aos dedinhos para explicar que cada ‘dog’ custa R$ 3. “Mostro os produtos, mostro os dedos, vou apontando. Não tem dificuldade, não”, garante a vendedora que, nesses 15 dias de Copa do Mundo, não conseguiu arranhar um inglês, nem outro idioma.

 “Ainda não aprendi nenhuma palavra e acho que nessa altura do campeonato está difícil aprender”, diz a vendedora, sem preocupação.

Freguesia dos torcedores na Copa é alvo dos comerciantes da área*

Os comerciantes do entorno da Arena Fonte Nova, que já recebeu quatro jogos e receberá mais dois,  apostam nos turistas para faturar. Aos 85 anos, o comerciante Zelito Lima, da Ladeira do Pepino, deu cara nova ao estabelecimento com letreiro diferente, além de mesas e cadeiras. “Na Copa das Confederações, os gringos encheram o bar. Eles gostam de se misturar com a gente. Tiraram um monte de fotos”, empolga-se o comerciante.

O mesmo aconteceu  com outros tantos bares, restaurantes e até supermercados. De Nazaré ao Campo da Pólvora, do Dique ao Jardim Baiano, os estabelecimentos passaram por melhorias e se prepararam para receber o público da Copa do Mundo. “Depois da Arena, o movimento melhorou porque o bairro está mais estruturado. Agora, a Coca-Cola ajudou com freezer, isopor, porta-guardanapos”, conta Irene Santana, proprietária da Delícia do Dique, pequeno restaurante à beira da pista.

Na avenida Joana Angélica, em Nazaré, o bar e restaurante Lavas está de cara nova. “Aqui eles fizeram a pintura externa e deram mesas, cadeiras e freezer. Tomara que não seja só para a Copa”, afirma a gerente Ana Anunciação. Os bares estão se abastecendo como podem para a série de jogos que vai acontecer na Fonte Nova – os habituais e os que surgiram por causa da Copa.

* por Alexandre Lyrio

 

 

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