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16 August 2026

Polipílula contra AVC é testada em 8,5 mil brasileiros em estudo inédito

Pesquisa brasileira sobre prevenção do Acidente Vascular Cerebral (AVC) avança para uma nova etapa com o recrutamento de 8,5 mil voluntários em diferentes regiões do país. O estudo avalia uma polipílula para prevenção do AVC, formada pela combinação de três medicamentos já utilizados no tratamento de fatores de risco cardiovasculares. Os participantes serão acompanhados por um período estimado entre três e quatro anos. A pesquisa é conduzida pelo Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, em parceria com o Ministério da Saúde, por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS). As informações são da Agência Brasil.

O trabalho conta ainda com a participação de unidades de atenção primária à saúde e secretarias de saúde. A coordenação está a cargo da neurologista Sheila Martins, chefe do Serviço de Neurologia e Neurocirurgia do hospital gaúcho. A proposta é investigar se a combinação de medicamentos pode reduzir o risco de um primeiro AVC em pessoas que ainda não tiveram a doença, mas apresentam fatores que aumentam a possibilidade de desenvolver problemas cardiovasculares. A estratégia também será avaliada em relação a outros desfechos, como demência, alterações de memória, infarto, insuficiência cardíaca e morte por doenças circulatórias.

Polipílula reúne três medicamentos em uma única apresentação

A combinação testada reúne rosuvastatina de 10 miligramas (mg), utilizada para controle do colesterol, com dois medicamentos para controle da pressão arterial: valsartana de 80 mg e anlodipina de 5 mg. A proposta é permitir que os três princípios ativos sejam administrados conjuntamente em um único comprimido, facilitando a utilização do tratamento. Antes da atual fase de expansão, a estratégia passou por uma primeira etapa de testes em humanos. Entre 2020 e 2023, 370 pessoas participaram da fase inicial em Porto Alegre, que apresentou resultados considerados positivos pela equipe responsável. A avaliação preliminar indicou que a combinação foi bem tolerada e teve efeito sobre a pressão arterial e o colesterol.

“A ideia é que a gente consiga provar a eficácia do tratamento nessas pessoas que são de baixo e médio risco”, disse Sheila Martins à Agência Brasil.

Segundo a neurologista, o número de participantes é fundamental para que os resultados tenham maior consistência científica e possam contribuir para futuras decisões na área da saúde pública. “Quanto maior o número de participantes, mais robustas serão as evidências geradas e maior o potencial de orientar futuras políticas públicas de prevenção”.

Quem pode participar do estudo

O estudo é destinado a pessoas entre 50 e 75 anos que nunca tiveram AVC ou infarto e que não utilizem medicamentos para colesterol, hipertensão ou diabetes. A participação é gratuita e inclui acompanhamento médico periódico por equipes especializadas. O recrutamento e o acompanhamento já ocorrem em 14 centros de AVC distribuídos por São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Distrito Federal, Bahia, Pernambuco e Acre. Segundo Sheila Martins, novos centros estão sendo incorporados à pesquisa em outras regiões brasileiras.

Os voluntários serão distribuídos por sorteio em dois grupos. Uma parcela receberá a polipílula com os medicamentos ativos, enquanto a outra utilizará um placebo, ou seja, uma apresentação sem os princípios ativos avaliados. O modelo permite comparar os resultados dos dois grupos ao longo do período de acompanhamento. A expectativa é observar, durante aproximadamente três anos, se a estratégia reduz a ocorrência de AVC, demência ou piora da memória. Entre os resultados secundários estão a avaliação de possíveis reduções nos casos de infarto, insuficiência cardíaca e mortes relacionadas a doenças circulatórias. As informações sobre participação podem ser obtidas pelo telefone ou WhatsApp (51) 99935-6911.

Aplicativo ajuda participantes a acompanhar fatores de risco

Além do tratamento, o projeto utiliza o Riscômetro, aplicativo criado para ajudar o participante a compreender e acompanhar o próprio risco cardiovascular. A ferramenta permite estimar a possibilidade de ocorrência de AVC, infarto ou outras doenças circulatórias e acompanhar mudanças relacionadas aos fatores de risco. A experiência da fase inicial também mostrou que o acompanhamento pode estimular mudanças de hábitos. Segundo Sheila Martins, participantes passaram a praticar mais atividade física e alguns deixaram de fumar após receberem informações e lembretes por meio do aplicativo.

“Uma coisa importante na fase inicial do estudo foi que as pessoas, usando o aplicativo, puderam mudar seu estilo de vida. Aumentaram a atividade física, por exemplo. Isso é maravilhoso. Elas recebiam mensagens lembrando de fazer atividade física. Quem fumava, parou de fumar. Então, isso motiva as pessoas a mudar para também reduzir o risco”.

A iniciativa busca, portanto, não apenas avaliar o efeito da combinação medicamentosa, mas também ampliar a percepção dos participantes sobre a importância da prevenção cardiovascular.

Hipertensão é um dos principais fatores de risco

O Acidente Vascular Cerebral é apontado pela neurologista como uma das principais causas de morte e incapacidade no Brasil. Dados do Portal da Transparência do Registro Civil indicam que 89.490 brasileiros morreram em decorrência da doença no ano passado. No cenário internacional, a Organização Mundial do AVC estima que o número de mortes relacionadas à doença pode crescer nas próximas décadas. A projeção indica uma elevação de 6,6 milhões de óbitos registrados em 2020 para aproximadamente 9,7 milhões em 2050.

Apesar do cenário, Sheila Martins destaca que grande parte dos casos pode ser evitada por meio do controle dos principais fatores de risco. Entre eles estão hipertensão, sedentarismo, obesidade, alimentação inadequada e tabagismo. A pressão arterial merece atenção especial. De acordo com a pesquisadora, o risco de AVC começa a aumentar a partir de níveis de pressão de aproximadamente 115 por 75 milímetros de mercúrio (mmHg), com elevação progressiva do risco conforme os níveis aumentam.

A pressão arterial sistólica (PAS) corresponde à pressão exercida pelo sangue quando o coração se contrai e impulsiona o sangue para as artérias. Já a pressão arterial diastólica (PAD) representa a pressão durante a fase de relaxamento do coração. A medição é expressa em milímetros de mercúrio (mmHg). Tradicionalmente, pessoas com elevações leves da pressão são orientadas a adotar mudanças no estilo de vida, como reduzir o consumo de sal, praticar atividade física e evitar o consumo excessivo de álcool. A utilização de medicamentos costuma ser indicada em situações de pressão mais elevada, como a partir de 140 por 90 mmHg, conforme avaliação médica.

Estudo avalia prevenção antes do primeiro AVC

A nova fase da pesquisa parte justamente da possibilidade de intervir antes que ocorra um evento cardiovascular grave. Segundo Sheila Martins, o objetivo é verificar se uma combinação de medicamentos em doses relativamente baixas pode prevenir o primeiro AVC em pessoas que apresentam risco, mas ainda não utilizam tratamento medicamentoso para hipertensão, colesterol ou diabetes.

“O estudo é para evitar o primeiro AVC, usando uma primeira polipílula brasileira nas pessoas que tenham a pressão máxima de 139 e a mínima de 121, com 50 a 75 anos de idade, e que tenham, pelo menos, um dos fatores de risco modificado, como obesidade, sedentarismo, alimentação não saudável e fumo”.

A pesquisadora afirma que esse grupo representa uma parcela expressiva das pessoas que sofrem AVC no mundo. “São pessoas de baixo e médio risco que têm uma enorme possibilidade de prevenção”, disse a neurologista do Hospital Moinhos de Vento. Os resultados apresentados pela equipe em congressos internacionais, a partir da primeira etapa do trabalho, apontaram que a combinação foi capaz de reduzir a pressão arterial em aproximadamente 12 mmHg. Assim, uma pessoa que apresentasse pressão máxima de 139 mmHg, por exemplo, poderia chegar a aproximadamente 127 mmHg após o tratamento, segundo a médica. O colesterol também apresentou redução significativa nos testes iniciais, com queda de aproximadamente 40 miligramas por decilitro.