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17 October 2021

Por segurança, Samu só atende vítima de tiro na Bahia com apoio da PM

A medida, para garantir segurança dos socorristas, demanda tempo, atrasa o atendimento e gera queixa de quem aciona o 192

Depois de três anos trabalhando no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Salvador, o clínico e ortopedista L.P., 29 anos, foi “batizado” e recebeu sua primeira ameaça de morte. Os momentos de tensão foram vividos, por volta das 20h do  dia 12, no Conjunto Arvoredo, no bairro de Tancredo Neves, quando ele e a equipe chegaram ao local para socorrer um homem que tinha sido baleado dentro de um carro.

Por questões de segurança, esse tipo de ocorrência – que envolve agressão por arma de fogo – só é atendido pelas equipes do Samu com a presença da Polícia Militar. A mudança no protocolo é de setembro do ano passado, quando uma ambulância foi interceptada e o paciente executado a caminho do hospital.

O procedimento causa, de acordo com o coordenador do Samu em Salvador, Ivan Paiva, atrasos de, em média, cinco minutos na resposta aos chamados – alvo de queixas de familiares de vítima e de quem aciona o socorro.

Para o médico L. o pedido de socorro já chegou com a informação de que a PM tinha sido acionada. “Para azar nosso, chegamos antes da polícia”, lembra, trêmulo, o profissional ao recordar o episódio. Segundo ele, assim que a equipe chegou, um grupo retirou a vítima de dentro do carro onde tinha acontecido o crime.

“Não deixaram a gente fazer o procedimento, a gente teve que colocar a pessoa dentro da ambulância para tentar prestar o atendimento. A gente não sabia se a pessoa que tinha atirado ainda estava ali”, disse. Foi quando a confusão aumentou.

“Começaram a esmurrar a ambulância, dar chutes, gritar para a gente abrir a porta. Quando abri a janela, disseram que se a gente não atendesse a pessoa lá, iam matar a gente lá mesmo”. Mesmo com o veículo sendo sacudido, o condutor conseguiu sair do local em direção ao Hospital Geral Roberto Santos, no Cabula, onde a vítima chegou morta.

“Tenho três anos no Samu e nunca tinha passado por uma situação tão agressiva. O que a gente podia fazer era colocar a vítima na ambulância e rezar para não levar um tiro. A gente ainda foi seguido por motos que eu não sei se eram parentes ou quem alvejou a pessoa. Pedi socorro pelo rádio, pela central, mas eu não uso colete, só ando com a roupa do Samu, o estetoscópio e a luva”, desabafou o médico, que também estava acompanhado por uma enfermeira e um estudante de Medicina, além do condutor. Por sorte, ninguém se feriu.

Nunca tinha passado por uma situação tão agressiva. O que a gente podia fazer era colocar a vítima na ambulância e rezar para não levar um tiro
L.P. Médico socorrista do Samu sobre agressão quando atendia uma ocorrência de vítima de tiro em Tancredo Neves

Zona Segura
O serviço, criado para atender chamados de urgência em 15 minutos, em média, tem recebido queixas por conta da demora no socorro a vítimas de arma de fogo. Na primeira semana do mês, testemunhas reclamaram que a ambulância demorou mais de 40 minutos em dois casos.

Primeiro, na morte do servidor Maceluan Magalhães, 40 anos, em Itapuã, no dia 4, em que amigos disseram ter esperado 45 minutos. Depois, na do garagista José Souza dos Santos, 56, no Rio Vermelho, dia 6, quando testemunhas relataram espera de 40 minutos.

“A polícia veio e disse para não mexer nele e esperar o Samu, que demorou 45 minutos”, diz a namorada de Maceluan, que pediu para não ser identificada. O servidor foi baleado e teve a artéria femoral atingida em um assalto. Ele chegou morto ao Hospital Geral do Estado (HGE).

Já o advogado Jardel Barreto, que estava no restaurante em que o garagista José morreu após ser baleado, também em um assalto, e chamou o Samu, falou da angústia da espera. “Foram 40 minutos. Minha namorada é médica e ela ficou medindo o pulso dele de dez em dez minutos. Na terceira vez, ele já não tinha mais pulso. Quando a ambulância chegou, ele já estava morto”, diz.

O coordenador Ivan Paiva contesta as testemunhas e garante que, no primeiro caso, em Itapuã, o atendimento chegou em 28 minutos – o chamado foi às 18h49 e a ambulância reportou estar no local às 19h17 –, enquanto no segundo o chamado foi atendido entre 27 e 29 minutos.

Ele diz ter percebido, ao longo dos dez anos no serviço, que o “tempo da família é diferente”, ou seja, há uma sensação de que a espera é maior. Mas ele admite que o tempo nos dois casos foi superior à média: “O que a gente estima é que consiga atender em aproximadamente 15 minutos considerando boas condições de trânsito e outras condições da cidade. Nesse caso, foi o tempo de acionar a polícia e chegar ao local”, afirma.

Tempo Crucial
O médico Francisco Magalhães, presidente do Sindicato dos Médicos do Estado da Bahia (Sindimed-BA), afirma que qualquer demora pode ser crucial. “Um segundo pode custar um dano tremendo, qualquer demora no chamamento pode causar um dano irreversível. Agora, o que precisa ficar estabelecido é que a segurança dos profissionais tem que ser preservada”, disse.

A médica Milena Ramos, que trabalha no Samu de Salvador desde 2005, diz que, mesmo antes de ser adotado o protocolo, já ligava do próprio celular para a polícia. “Comigo, pelo menos, nunca aumentou muito, às vezes um minuto, dois, três minutos. Mas depende de cada situação”, declara.

Já o coordenador do Samu de Camaçari, o enfermeiro Benedito Fernandes Filho, que é diretor do Sindicato dos Enfermeiros do Estado da Bahia (Seeb), afirma que, em média, chamar e aguardar a Polícia Militar pode aumentar o tempo de resposta de oito a dez minutos. Lá, eles recebem apoio e mantêm uma parceria com o 12º Batalhão da Polícia Militar.

Para azar nosso, chegamos antes da polícia. Pedi socorro pelo rádio, mas eu não uso colete, só ando com a roupa do Samu, o estetoscópio e a luva
L.P. Médico socorrista do Samu sobre agressão quando atendia uma ocorrência de vítima de tiro em Tancredo Neves

Em nota, o Ministério da Saúde disse que a rotina adotada pelo gestor local “não é uma prática adotada ou recomendada” pelo governo federal, mas que “é uma decisão local tomada com base em evidências apuradas” e que os estados e municípios têm autonomia para legislar sobre a atuação do Samu no âmbito local.

O Protocolo de Suporte Básico de Vida, para o Samu, publicado em 2014 pelo Ministério da Saúde, informa que “a primeira prioridade da equipe deve ser sua segurança. O desejo de ajudar não deve se sobrepor à própria segurança da equipe”. O trecho trata da necessidade de acionar a polícia em situações de insegurança, quando há “possibilidade de violência contra a própria equipe”.

Proteção
A médica Milena Ramos conta que o protocolo é importante porque já houve casos em que a equipe presenciou tiroteios ou foi surpreendida por grupos armados. “Teve uma situação que, quando a gente chegou, em Tancredo Neves, o filho da vítima foi avisando que ali era bocada, mas que ele já tinha avisado pro pessoal não mexer com a gente”, lembra.

O atendimento foi prestado, mas quando estavam na ambulância quatro homens armados começaram a rondar o veículo. “Houve situação de chegar e o agressor ainda estar lá, porque, às vezes, é um familiar, um vizinho ou traficante, e a família não vai dizer por medo de represália”, explica Benedito Filho, que comanda cinco equipes em Camaçari.

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