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25 January 2022

“Quem não conseguir acompanhar o liberalismo, a gente dá voucher”, diz Paulo Guedes a governadores

Apesar de estarem presentes o presidente eleito Jair Bolsonaro, 19 dos 27 governadores com mandato a partir de janeiro, os presidentes do Senado e da Câmara e o ministro coordenador da transição, Onyx Lorenzoni, a estrela do encontro com os governadores, nesta quarta-feira (14) em Brasília, foi o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes.

Coube a ele o privilégio de fazer o pronunciamento final do evento, honra que normalmente cabe à autoridade máxima presente. Bolsonaro, no entanto, limitou-se a ouvir em silêncio o seu auxiliar apresentar em cores fortes, e sem retoques, o figurino que pretende impor ao Brasil. Defendeu a privatização agressiva de ativos do Estado, o fim da “Bolsa-Empresário”, a redução de juros, ampla abertura de oportunidades ao capital estrangeiro e a simplificação dos impostos. E pediu a ajuda dos governadores para aprovar as reformas no Congresso. Suas palavras, tais como anotadas por um atento participante do fórum:

“O problema do Brasil é que foram 30 anos de centro-esquerda, e a social democracia quebrou o país. Agora, mudou. Quem manda é a centro-direita. O empresário brasileiro virou rentista. Agora, vai ter que empreender para ganhar dinheiro. Vamos acabar com a Bolsa-Empresário. Pagamos um Plano Marshall por ano de juros da dívida, isso não dá, vai acabar. Quem não conseguir acompanhar o liberalismo, a gente dá voucher. Os que ficarem para trás ganham voucher da saúde, voucher da educação”.

“Se vocês não nos ajudarem, vão sofrer”   

Governadores deixaram a reunião certos de que os planos de privatização de Paulo Guedes vão bem além do que se tem noticiado – sobretudo investimentos e concessões na área de infraestrutura – e devem abranger todos os campos da economia, incluindo saúde e educação. Além de identificar mesmo o governo Sarney como de centro-esquerda, o economista provocou surpresa pela contundência com que se dirigiu aos chefes de governos estaduais.

“Não vai faltar dinheiro nem para o governo federal nem para os estados se fizermos as reformas que temos de aprovar no Congresso”, afirmou. “Vocês vão ganhar mais porque nosso objetivo é descentralizar e para isso queremos mais recursos nos estados. Mas, se vocês não nos ajudarem, vão sofrer porque a crise grande e só sairemos dela com mudanças profundas”.

Durante a reunião, o governador eleito de São Paulo, João Doria (PSDB), demonstrou o traquejo de quem por muitos anos promoveu, como empresário, grandes eventos corporativos. Comandou o encontro com mão de ferro, determinando o roteiro, o tempo de fala de cada um e toda a dinâmica seguida.

Bolsonaro contra freio ambiental e indígena  

Muito elogiado pelos governadores novatos que deram a tônica do evento, Jair Bolsonaro falou antes de Guedes e por bem menos tempo. Criticou as barreiras legais que, a título de proteger recursos ambientais ou preservar os interesses dos indígenas, impedem o crescimento econômico.

Tomou como exemplo o estado de Roraima. “Se eu fosse rei de Roraima, Roraima em 20 anos seria o Japão ou uma Coreia, porque recurso natural não falta para isso. Aquilo ali é um retrato do Brasil. Há países que não têm nada em termos de recursos naturais, mas souberam desenvolver e explorar aquele pouco que a natureza deu. O Brasil tem tudo, uma riqueza natural imensa, e não tem nada porque não deixam desenvolver. Defendo o meio ambiente, mas não do jeito que está aí”.

Provocou alguma divergência a redação a ser dada na questão da estabilidade do funcionalismo. Os governadores mais próximos a Bolsonaro (entre eles, os de São Paulo, Rio e Minas) pretendiam incluir numa carta a ser divulgada conjuntamente a proposta de fim da estabilidade do funcionalismo público estadual. Renato Casagrande (PSB-ES) interveio, discordando do texto e propondo um que indicasse a necessidade de aprofundar a discussão do tema, o que foi aceito pelos demais.

Falaram no encontro, além dos governadores, Onyx e os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE) – nos três casos, rapidamente e de forma quase protocolar. Dos nove governadores do Nordeste, somente o piauiense Wellington Dias (PT) compareceu, representando a região. Os governadores nordestinos ficaram de se reunir em Brasília no próximo dia 21.

Apesar de a reunião com os governadores do Nordeste ter ficado para semana que vem, Dias já entregou uma carta a Bolsonaro com as pautas prioritárias da região. Entre as demandas listadas estão a crise hídrica, a segurança pública e investimentos em Ciência e Tecnologia. Leia a íntegra do documento.

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