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1 December 2021

Shopping deve atrair negócios para Cajazeiras

Há cinco anos como diretor-superintendente de obras da Consil, o engenheiro baiano César Mesquita participou ativamente da mudança de rumo da construtora, que, depois de ter feito 32 torres e cerca de 3 mil unidades residenciais na sua história de 11 anos, decidiu se lançar no ramo comercial.

Resultado: a experiência fez com que, na contramão da crise, a empresa se destacasse no mercado, reunindo atualmente cerca de R$ 200 milhões em investimentos em quatro grandes e inovadores empreendimentos: um hotel em Amaralina, inaugurado em maio, o Shopping Cajazeiras, em Salvador,  e o América Outlet, em Feira de Santana, que devem ser inaugurados ainda este ano, além de um centro médico, que deve ficar pronto no primeiro trimestre do ano que vem, no bairro da Paralela, também na capital baiana. “Foram decisões bem acertadas tomadas pela empresa no momento certo, diante da retração do mercado residencial”, diz Mesquita.

A Consil inaugurou um hotel este ano, em Salvador, e planeja para novembro a inauguração de dois grandes centros comerciais, o Shopping Cajazeiras, em um dos bairros mais populosos da cidade, além do América Outlet, em Feira de Santana. A crise não chegou à empresa?

Sim, a crise existe no país, mas a Consil soube enfrentá-la estrategicamente. Daí que, há cerca de dois anos, com a visível queda do mercado imobiliário nacional, a empresa mudou um pouco seu foco, planejando e executando empreendimentos diferenciados, saindo da linha da qual ela já estava acostumada. Então, apesar da retração, a empresa apostou em pesquisas de mercado que apontaram para os projetos que estão sendo executados hoje em quatro grandes empreendimentos, que somam investimentos de R$ 200 milhões.

Que mix de atrativos e condições favoráveis foram apontados pelas pesquisas de mercado para cada um desses empreendimentos que deram à empresa a certeza de sucesso, mesmo em um ano de crise?

Todos apresentam aspectos bem peculiares: o Salvador Express Praia Hotel, localizado à beira-mar, entre Amaralina e Pituba, tem características de um hotel-butique. Foi inaugurado em maio deste ano e já está em pleno funcionamento. Foi o primeiro empreendimento diferenciado que a empresa fez no ramo de incorporações. Há também o projeto do Alpha Medical Center, com previsão de entrega no primeiro trimestre de 2016, na Avenida Paralela. É um empreendimento que tem um térreo mall, com 12 lojas e 194 salas destinadas a área médica, foyer com auditório. Outro empreendimento é o Shopping Cajazeiras. Constituído de 110 lojas, o shopping dispõe de um complexo de cinemas com quatro salas, play center, agência bancária, área de fast-food com 250 lugares, garagens também com 250 vagas, com todas as áreas comuns climatizadas. A previsão é inaugurar em 11 de novembro. O quarto empreendimento é o América Outlet, em Feira de Santana, situado nas margens da BR-324, há cinco quilômetros de Feira de Santana. São 100 lojas com 700 vagas para estacionamento, tudo isso em um terreno de 50 mil metros quadrados. O empreendimento vai reunir lojas de grandes marcas nacionais e internacionais, inclusive a primeira Guess do Norte e Nordeste. As lojas variam de 80 a 840 metros quadrados. Contará com fast-food climatizado, com ampla choperia, além de equipamentos de lazer, como um parque de diversões, com roda-gigante e carrossel, que foram importados da China. Tudo já está em fase de montagem para a inauguração também em novembro. São 15 mil metros quadrados de área bruta locável.

O senhor começou a atuar na Consil pouco tempo antes de a empresa lançar-se neste ramo dos empreendimentos comerciais. Particularmente, o senhor considera ter sido mesmo o melhor caminho a seguir naquele momento?

Comecei a atuar na Consil em 2010, quando a empresa ainda atuava apenas no foco imobiliário residencial, com imóveis para todo o tipo de renda. Menos de três anos depois, a empresa, que já tinha um histórico de, aproximadamente, três mil unidades residenciais entregues em Salvador, soube mudar de atuação, justamente no momento certo: enquanto outras empresas ainda buscavam alternativas na área imobiliária, ela agiu com eficiência e rapidez, investindo em quatro empreendimentos bem acertados, muito adequados, realmente. Tudo foi feito de forma bem profissionalizada, com a instituição da empresa América Malls, que vai gerir os empreendimentos. No caso do Shopping Cajazeiras, vale destacar que Cajazeiras é um bairro que tem um comércio impressionante, é o maior bairro da América Latina, então, um equipamento desse para a comunidade de Cajazeiras vai ser muito interessante, vai valorizar muito o bairro que só conta, até então, com pequenos centros comerciais, apenas lojas de rua. 

Há planos para atrair para o bairro as grandes lojas de departamento para funcionarem como as chamadas lojas-âncora?

São, por enquanto, apenas planos, ainda em estudo, embora tenhamos espaço para isso. Já em Feira, o Outlet vai reunir grandes lojas e grandes marcas. Em Cajazeiras, estão entre os nossos principais atrativos as quatro salas de cinema e o play kids. É um bairro que tem um apelo popular e que vai ganhar um empreendimento que não vai dever nada a outros equipamentos da cidade, inclusive com sala 3D no cinema, por exemplo. Fora isso,  é um empreendimento que vai movimentar  toda a economia local e, por isso, está sendo aguardado com expectativa pela comunidade. É um equipamento que, realmente, valorizou ainda mais a região, onde residem mais de 400 mil pessoas, segundo pesquisa Ibope Inteligência, que fizemos antes da decisão pelo empreendimento. A comunidade também está com muita expectativa, e a gente sempre recebe na obra pessoas que chegam e querem saber quando vai ser inaugurado, que lojas teremos, essas coisas. Lá em Feira também, o América Outlet está sendo muito aguardado, pois deve impactar a economia da cidade que já conta com um comércio forte, que fervilha, por ser o maior entroncamento rodoviário do Norte e Nordeste. Tem cerca de 600 mil habitantes, sendo do mesmo porte de importantes polos do interior paulista, como Campinas, São José dos Campos e Ribeirão Preto. Mais especificamente, só de geração de empregos, serão mil diretos nos  dois shoppings, em Cajazeiras e Feira. A pesquisa do Ibope Inteligência também apontou a projeção de faturamento mensal do Shopping Cajazeiras: R$ 3,64 milhões, no primeiro ano de funcionamento, passando para R$ 4,61 milhões no sexto ano.

Cajazeiras não é um bairro novo e sua população elevada sempre foi de conhecimento de todos. Por que só agora grandes empresas, como a Consil, começam a demonstrar interesse em investimentos nessa área da cidade?

Realmente, Cajazeiras já merecia um equipamento do porte deste shopping já há algum tempo, Mas, mais uma vez, a Consil conseguiu enxergar isso na frente das outras empresas e, agora, eu acredito que este empreendimento vai valorizar ainda mais esta região, despertando também o interesse de outras empresas para este mercado. O mesmo deve acontecer com bairros como a Ribeira e toda a região suburbana de Salvador, por exemplo, que precisam também de um upgrade em seus empreendimentos comerciais.

Quanto à geração de empregos, nota-se que, ainda nesta fase da construção do Shopping Cajazeiras, há muitos operários do bairro, o que é muito bom. De modo geral, como está a qualificação da mão de obra neste setor?

A mão de obra na construção civil da Bahia tem ainda muito o que melhorar e as empresas precisam investir bastante, mas uma coisa é fato: desde que estou atuando nessa área, a qualidade da mão de obra já avançou bastante, fruto de muitos treinamentos específicos e capacitação em geral que já contribuíram bastante para a melhoria dessa questão. Mas, além das instituições profissionalizantes, é preciso que os empresários invistam mais. Mas, para tanto, aguarda-se por uma melhora do mercado, pois a empresa não pode investir em equipe e depois ser obrigada a parar a obra, alimentando o problema da alta rotatividade que inviabiliza maiores investimentos em capacitação no setor. O ideal mesmo era que as empresas investissem em suas equipes, garantindo sempre o mesmo grupo e o retorno dos investimentos em qualificação da mão de obra

Mas, nas pequenas obras e reformas, ainda é difícil encontrar mão de obra qualificada. As frustrações ainda são bem comuns…

O que acontece é que, infelizmente, quando se faz uma reforma em casa, nem sempre, por conta do trabalho, a gente pode acompanhar de perto, diferentemente do que ocorre nos empreendimentos da indústria da construção, onde os níveis de qualidade dos serviços são constantemente supervisionados por engenheiros e outros profissionais. Ainda assim, é sempre bom poder contar com uma equipe de confiança.

Voltando à questão do mercado imobiliário residencial, quais suas perspectivas para este ramo na Bahia?

O que existe, de fato, é um déficit habitacional elevado, portanto, há demanda. Ou seja: muita gente precisa comprar apartamento ainda, até porque, no Brasil, as pessoas não compram imóveis para investir e, sim, para morar. O que falta agora é dinheiro, crédito. No caso de Salvador, tem ainda um agravante que é a questão da falta de definição quanto ao Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) e à Lei de Ordenamento do Uso e da Ocupação do Solo (Louos). São questões importantes para dar uma alavancada no setor na Bahia. São pontos que precisam de regras claras e que precisam ser definidas o quanto antes, sejam elas quais forem, pois é fundamental para o mercado sair desse cenário de incerteza. Fora isso, considerando os segmentos de atuação, creio que os ramos de alto padrão ainda tenham um mercado bom, mas há ainda muita demanda reprimida na classe média e, sobretudo, para empreendimentos mais populares.

Ainda em relação ao PDDU e à Louos, o que esperar da polêmica quanto ao gabarito da orla?

Acho que a orla é um dos pontos cruciais do PDDU. Independentemente de opiniões divergentes, é preciso que se tenha um esforço para se chegar a um consenso, pois é uma questão que precisa ser resolvida. Eu conheço muitos investidores que só estão aguardando esta definição para executar planos na cidade. Vale destacar que a indústria da construção civil da Bahia é a que mais tem sofrido no país pois, além da crise propriamente dita, tem ainda a insegurança no mercado local. Eu não sou arquiteto, nem urbanista, mas não é preciso ser especialista para ver que todas as cidades da região Nordeste têm uma orla adequada e que ficamos para trás, pois a orla de Salvador está realmente sucateada. Não sei exatamente qual será o gabarito ideal, mas o que sei é que estamos esperando por um consenso, em prol da nossa orla, que precisa ser revitalizada. É uma orla linda, com enorme potencial, portanto. É uma pena seu estado.

Após uma retração econômica e problemas urbanos que se acumulam, qual o perfil que se pode esperar para os novos empreendimentos no pós-crise?

Creio que a oferta de infraestrutura completa com áreas comuns decoradas deve continuar, pois é uma forte tendência que veio para ficar, mas que o mercado deve voltar, apostando agora mais no empreendimento médio de dois quartos, talvez não mais empreendimentos tão grandes. Já executamos empreendimentos com até 320 apartamentos. Creio que agora serão projetos mais enxutos, mas, com certeza, mantendo a infraestrutura completa. Acho importante também a aposta em bolsões que tragam um mix de atrativos comerciais e residenciais. É algo deve ser visto com prioridade pelos arquitetos e urbanistas, e com seriedade, pelas autoridades competentes, até pelos problemas de mobilidade que enfrentamos.

Por: A Tarde

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