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2 August 2021

Vexame na Copa mostra diferença entre a gestão e o jeitinho no futebol brasileiro

Depois do título Mundial de 2002, conquistado justamente sobre os alemães, a Seleção se restringiu a conquistas de torneios com nível técnico inferior.

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Tecnico da seleção brasileira Luiz Felipe Scolari (Felipão)

A humilhação de 7×1 que a Alemanha impôs à Seleção Brasileira não se resume aos 90 minutos de jogo (ou aos seis em que o Brasil tomou quatro gols). A humilhação revela também a diferença entre a gestão e o jeitinho.   

Dentro de campo, o futebol é feito de fatores técnicos, táticos, físicos e mentais. Fora de campo, o futebol é (ou deveria ser) feito como qualquer empresa, com planejamento, estratégias e metas. É aí que surge um abismo entre Brasil e Alemanha.

Depois do título Mundial de 2002, conquistado justamente sobre os alemães, a Seleção se restringiu a conquistas de torneios com nível técnico inferior, como Copa América e Copa das Confederações. Assim, criou-se uma ilusão de que a camisa amarelinha ainda era sinônimo de brilho e que as vitórias surgiriam como que por magia. Redondo engano.

De acordo com valores divulgados pela própria Confederação Brasileira de Futebol (CBF), entre 2003 e 2013 a entidade arrecadou cerca de R$ 2,4 bilhões com ações e patrocinadores. No período, mesmo com tanto dinheiro, a Seleção caiu nas quartas de final da Copa do Mundo em 2006 e 2010 e acaba de ser esmagada pela Alemanha. Além disso, o sonho do ouro olímpico segue sendo um sonho.

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Padrão germânico

Os alemães, por sua vez, deram naquela Copa de 2002 o primeiro passo de uma reestruturação que começou após um fracasso em 2000, quando caíram na primeira fase da Eurocopa (europeu de seleções). 

“A Alemanha é um exemplo de superação de crise para qualquer negócio, está além do futebol. É o único país da Europa que não se afundou na crise econômica”, lembra a professora Laura Lavigne, coordenadora da pós-graduação em Gestão e Negócio da Universidade Salvador (Unifacs).

Já o professor de estratégia Paulo Vicente Alves, da Fundação mineira Dom Cabral, ressalta que a Alemanha adotou a cultura de futebol profissional, com campeonatos nacionais bem organizados, que resultam em times mais fortes – em 2013, a final da Liga Europeia de Clubes foi disputada entre duas equipes alemãs.

Para Alves, a CBF e a maioria dos clubes brasileiros vão à direção oposta, com administrações amadoras de dirigentes escolhidos mais por interesses que pela competência. 

“Temos times que só vivem no prejuízo, com direções de procedência duvidosas. Um futebol milagreiro. Adoramos o improviso, o garotinho que com dificuldades, sem apoio, vence. Mas desses, tira-se um de um milhão”, diz.

Depois do fiasco de 2000, a Federação Alemã de Futebol (DFB) e a Liga Nacional – que organiza o campeonato alemão – agiram para evitar a dependência de um milagre.

Desde 2001, os clubes são obrigados a ter academias para jovens. Só assim são autorizados a jogar a primeira e segunda divisão. Até 2013, os clubes investiram R$ 1,5 bilhão na formação de atletas. 

Além disso, em parcerias com escolas, a DFB já criou 400 centros de treinamento pelo país para crianças de 10 a 14 anos. Só depois de passar por estes centros – e boa parte da seleção que está no Brasil passou – é que os garotos vão para os clubes. 

Outro fator importante é que, como a iniciação na bola é feita em conjunto com as escolas, há um acompanhamento da vida acadêmica dos jovens e muitos entram na universidade mesmo após a profissionalização no campo.

Tudo isso é gerido por treinadores que fazem intercâmbio e acompanham os atletas desde cedo. É o caso de Joachim Löw, que foi auxiliar da seleção no Mundial de 2006, quando os alemães ficaram em terceiro lugar dentro de casa. 

Alçado ao posto principal de comando, Löw levou o time à final da Euro 2008, à semi da Copa 2010 e à semi da Euro 2012. Ainda não tem um título, mas o resultado do planejamento é nítido, a começar pela concentração exclusiva para a Copa construída no Extremo Sul da Bahia. 

Enquanto isso, no Brasil, as bases dos clubes não seguem um padrão, o que também reflete na Seleção. Em 2013, no Sul-Americano sub-20, a equipe só venceu um jogo e não foi ao Mundial. No sub-15, outra eliminação na primeira fase. No sub-17, derrota nas quartas de final do Mundial.

“A Seleção Brasileira ainda é uma das melhores do mundo, mas a CBF é mais de prometer e não cumprir. A Alemanha não promete muito, mas faz”, compara o professor Alves.

Caminho

No ano passado, um grupo de jogadores criou o movimento Bom Senso F.C., para tentar capitanear a modernização do futebol brasileiro. Dentre outras ideias, o grupo propõe o fair play financeiro – um clube não pode gastar mais do que arrecada. 

Segundo o movimento, que ganhou apoio da presidente Dilma Rousseff, dos 20 mil jogadores profissionais no Brasil, cerca de 16 mil recebem menos de dois salários mínimos e ficam desempregados ao menos seis meses no ano.

Procurado pelo CORREIO, o Ministério do Esporte informou que só se manifestaria sobre o futuro do futebol brasileiro após a Copa. A assessoria da CBF não respondeu aos contatos. Mais uma diferença entre a gestão e o jeitinho.

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